Se tivessem me ensinado inglês quando eu ainda era criança, duas vantagens eu teria na vida. A primeira é que meus pais não precisariam ter metido a mão no bolso, na minha adolescência, para pagar o Ibeu. A outra é que eu não precisaria claudicar tanto nas tentativas de me fazer entender na língua do príncipe Louis. Ao invés disso optaram por fazer de mim um aluno nota dez, na língua do “P”. Vopô-cepê sapá-bepê opo-que-pê epes-to-pou fapa-lapandopô? Imagino que sim.
E assim, como na linguagem, muito aprendizado ficou pelos acostamentos da longa BR 101 de nossas vidas. Por exemplo: depois que você terminou o segundo grau, quantas vezes precisou se socorrer da prova do nove? As mesmas vezes, imagino, que lhe receitaram um banho de assento, tão comum naqueles tempos ditosos.
E você ainda se lembra de como extrair a raiz cúbica de um número qualquer? Tirando o professor Serrano, não conheço mais ninguém que ainda saiba. Mas se você domina a operação, me responde rápido: se não for para ajudar um filho no dever de casa, de que lhe servirá aquele resultado?
Na Banda Marcial do Colégio Salesiano, reprovado no repique do tarol, aprendi a tocar tambor. Graças à competente ajuda do meu amigo compositor e colega de turma, Tina Tironi. Mas, depois de formado, tambor pra quê? Nem pra chamar chuva.
E o “salve lindo pendão da esperança...”, o Hino à Bandeira? Cantamos, cantamos... mas não se ouve mais, hoje em dia, alunos nos colégios, perfilados cantando, patrioticamente, a bela obra de Olavo Bilac Francisco Braga. Do mesmo jeito que ninguém mais dança bolero, nem usa cueca samba-canção, nem criança brinca mais de chicotinho queimado. Tudo isso perdeu importância e serventia para a nossa confortável vida abençoada pela eletrônica.
Fui um cobra no jogo de “ferrinho”. Gastava-se metade de um dia limando a ponta de um pedaço de metal. Então, desenhava-se dois círculos distantes uns três metros um do outro, a que chamávamos de “casa”. O jogo consistia em atirar o ferrinho no chão de terra e ir riscando o caminho a cada fincada até dar a volta na casa do adversário e voltar a própria casa. Mas onde encontrar uma rua de terra batida? Calçamentos e asfalto pra todo lado. A brincadeira perdeu, digamos, a infraestrutura.
As janelas abertas pelo celular, caminho rápido para se fazer declarações de amor, enviar músicas... decretaram o fim das serenatas. Hoje as serenatas, como as Pílulas do Dr. Ross, estão aposentadas e sumiram de vista. Assim como também desapareceram de nossos lavabos a loção Quina Petróleo Oriental e o sabonete Carnaval. E, das penteadeiras, o insinuante perfume Tabu. De nossas boas lembranças também se foram os leques, o machado para rachar lenha, a moringa, o ferro de engomar a carvão e os tamancos para se ir às praias. Por um lado, que pena! Por outro lado, ainda bem...
Mas nem tudo está perdido. O Baile Anual de Gala do Caçadores Clube, de Cachoeiro de Itapemirim, continua firme e forte. E o meu smoking também. Pendurado no armário, ele permanece de plantão. Só não sei por onde anda a gravata borboleta.