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Crônica

Na ponta da língua: todo o conhecimento (inútil ou não) que acumulamos na vida

Viver é uma eterna prova de vestibular. A gente acha que está bem preparado porque estudou muito, teve bons professores, mas existem sempre buracos negros pelo caminho

Públicado em 

28 ago 2022 às 02:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Marcos Alencar
Só não há saída para a calvície Crédito: Amarildo
Parece que não, mas viver é uma eterna prova de vestibular. A gente acha que está bem preparado porque estudou muito, teve bons professores, mas existem sempre buracos negros pelo caminho. A raiz quadrada do numeral 3 é provável que você ainda se lembre: 1.73205081. Mas duvido que saiba qual é a capital do Turkmenistão. Eu sei: Ascabate. E também me lembro qual foi a arma que Getúlio Vargas usou para se matar: um revolver Colt, calibre 32 S&W, cano longo.
Esta parece fácil. Quantos palitos tem uma caixa de fósforo? Todas sempre tiveram 40 palitos. Sei lá o porquê. Talvez você não saiba porque ainda não era nascido naquela época em que Merthiolate ardia.
Para saber o que os livros têm para nos contar é só mergulhar em suas páginas. Mas para conhecer bem a terra onde a gente vive é preciso observar, ouvir, adivinhar e sair perguntando. Alguém certamente um dia vai lhe contar onde se meteram aqueles besouros que se alimentavam de amendoins e que a gente os comia vivos pra.... pra... sei lá pra quê. Talvez porque tivéssemos pouco juízo ou porque não havia ainda os celulares pra gente se apiedar da filosofia rasa dos sem noção.
Todo mundo, ao que parece, já nasce sabendo que pra diminuir a temperatura de um ser humano usa-se um antitérmico. Para emagrecer, faz-se dieta. Para sossegar criança arteira, basta uma boa benzedeira. Mas o que fazer para livrar as galinhas do gogo? Atenção: não é gogó. É gogo, uma doença que causa uma ronqueira e deixa as pobrezinhas muito encatarradas. Costuma contaminar as aves em temporadas de chuvas e temperaturas baixas. Sem um veterinário para prescrever um antibiótico, você vai ter que se virar. Esprema na água das galinhas um limão e junte um dente de alho picado. No dia seguinte, o galo vai cantar de felicidade ao reencontrar as coleguinhas prontas pra dançar o Lago dos Cisnes.
Sabia que o primeiro nome do município de Viana era Jabaeté? E que caldo de cana e garapa são a mesma coisa? E que o corte de cabelo masculino em que se raspava as laterais da cabeleira, deixando apenas o topete, era chamado de Príncipe Danilo? Uma moda ditada pela fama do grande craque vascaíno “príncipe” Danilo Alvim.
Mas tenho cá minhas dúvidas se você é capaz de se livrar de um leve desarranjo intestinal sem se valer do Imosec. Na roça, longe de médicos e farmácias, pegava-se três ou quatro folhas da goiabeira e fazia-se um chá. Uma xícara depois e já estava na hora de buscar a namorada pra caçar vagalumes.
Como se vê, nesta vida tem remédio pra tudo. A bem da verdade, quase tudo. A inveja, por exemplo, não tem cura. Como incuráveis também são os mentirosos, as pessoas que conversam cutucando a gente e os pobres de espírito. Não se salvam nem com reza brava.
Tem mais um problema incurável. Na verdade, um problemão. Daqueles que nem juntando numa mesma sala de pesquisas dez cientistas, vinte pais de santo e doze cardeais serão capazes de, pelo menos, amenizar esta praga dos infernos: a calvície. Chás, comprimidos, massagens, banhos de ervas, tudo isso só serve para abastece o nosso contêiner de esperanças.
Exceção feita a minha sábia Vovó Amelia. Não que ela conhecesse a cura. Mas diante do abatimento profundo de meu tio Silvio, cuja calvície precoce o atormentava, minha avó não lhe ofereceu a possibilidade de cura, mas lhe acenou com um sábio consolo: “Meu filho, não fique triste, não”. Eu nunca vi um burro careca”.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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