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Comportamento

Salve-se quem puder: um guia para fugir da bandidagem na Grande Vitória

Até uma chegadinha na padaria do bairro é mais perigosa do que xingar a mãe do guarda. E os ladrões não brincam em serviço

Públicado em 

21 ago 2022 às 02:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Ilustração
O que os cidadãos daqui estão a implorar de joelhos é pela proteção celestial para não serem assaltados quando saírem às ruas Crédito: Amarildo
Se os institutos de pesquisa de opinião conseguissem aferir o volume de preces que chegam aos céus, certamente iriam confirmar o que todos já imaginam. Na Grande Vitória, em cada mil entrevistados, novecentos e tantos não pedem mais por saúde e nem mesmo para se ver livre das dívidas. O que os cidadãos daqui estão a implorar de joelhos é pela proteção celestial para não serem assaltados quando saírem às ruas.
Até uma chegadinha na padaria do bairro é mais perigoso do que xingar a mãe do guarda. E a bandidagem não brinca em serviço. Dependendo do nível de renda do marginal, você poderá ser ameaçado com uma singela faca de cozinha, uma pistola de 7,5mm, uma submetralhadora ponto-não sei-que-número ou um fuzil importado da República Tcheca. Nesses casos, é bom conhecer bem a dinâmica do assalto: diante de um bandido, não espere mais por um quase romântico “mãos ao alto”. Caiu em desuso. Assim como bandido mascarado (marginal moderno não tem medo da Covid e muito menos das câmeras e de você). Sem tempo a perder, eles agora vão direto ao assunto: "Perdeu, perdeu!”, “passe o celular”, “tira o relógio” “me dá o cordão...”
Para não correr perigo, esqueça a padaria. É melhor ficar em casa e anotar esta receita prática de pão de minuto: três xícaras de trigo,  duas colheres de margarina, duas de açúcar, duas de fermento, uma xícara de leite e um ovo. Misture tudo e leve ao forno. Em meia hora vai pra mesa. Se quiser, você pode ir até a janela e dar uma banana pra bandidagem. Pensando bem, melhor não.
Para tirar proveito desse horror que toma conta da população, três amigos meus criaram a Loteriazinha do Crime. Uma distração pra você jogar sem precisar sair do bunker em que vive. Basta um telefone para combinar as apostas em dinheiro e depois ficar de o olho no noticiário da TV. Ganha quem acertar se foi em Vitoria, Vila Velha, Serra ou Cariacica o primeiro crime do dia. Se os dois primeiros assaltos forem no mesmo município, além da grana o feliz acertador leva também um belo disfarce de mendigo para ser usado nas idas ligeiras ao mercadinho. Recomenda-se, neste caso, não pagar as compras com cartão. Use, de preferência, moedas. É bom não dar mole. Tem bandido de butuca na calçada.
A criançada é outro grande problema a enfrentar. Parquinho, nem pensar. Praia?! Tá doido? Ficar na areia hoje em dia é coisa só para os fortões de academia. Acabou aquele programa de ir ao cinema com tranquilidade. Passeios de bicicletas pedem circuito econômico: mas a família precisa morar em apartamento de, no mínimo, quatro quartos. A largada é no quarto do casal e segue pelo retão do corredor até receber a bandeirada na chegada à porta da rua. Então sobe a música dos campeões. Depois, como prêmio, um relax na piscina, digo, na banheira do casal. Caso o prédio tenha piscina recomenda-se descer com uma pedra na mão.
Depois de muito buscar alternativas para tirar as crianças de casa com segurança e levar a um lugar seguro, acho que encontrei uma boa alternativa. Aliás, ótima. O que me dizem do belo gramado do trigésimo oitavo Batalhão de Infantaria, em Vila Velha? Segurança maior não existe por aqui. Sem falar na gostosa prainha do local. “Super! Hiper!”, como diz o meu amigo Gil. O problema é chegar lá livre da bandidagem.
Pois seus problemas acabaram!! Esteja você em Vitória, na Serra ou em Cariacica, basta pular no mar e ir nadando até lá. As crianças – olha só que divertido! – irão empoleiradas numa grande boia de pneu de caminhão, rebocada por você. Garanto que elas vão amar.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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