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Crônica

Tanajuras, rolinhas, preás: eu, caçador, me confesso

A diversão/maldade consistia em espetar um graveto no buzanfã da formigona e ficar admirando seu desespero, batendo freneticamente as asas como um ventilador animal

Públicado em 

01 out 2023 às 01:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Amarildo
Ilustração de Amarildo para coluna de Marcos Alencar Crédito: Amarildo
Aposto um saco de farinha de mandioca como você não sabe quem inventou a farofa de bunda de tanajura. Eu sei. Ou melhor, eu acho que sei. Com certeza não foi um chef francês. E muito menos um italiano. A receita vem do nosso quintal. Não tem nem uma pitada de flor de sal do italiano Massimo Bottura, nem mesmo uma colherinha de Cúrcuma do francês Paul Bocuse. Essa inigualável farofa de bunda alada é totalmente brasuca. Mas também não brotou na cozinha do nosso aplaudido chef Juarez Campos.
A farofinha que faz muita gente torcer o nariz e um montão de gourmands lamberem os beiços veio ao mundo graças ao grande respeito que as famílias do interior sempre tiveram pela vida animal. Calma, que eu explico.
Essa gente boa da roça criou seus filhos com grande sabedoria. Respeitar os mais velhos, sempre agradecer a Deus pelo alimento de cada dia, não deixar resto de comida no prato e só sacrificar um animal se for se alimentar dele. Resumindo esse último ensinamento: só matar um animal se for pra comer.
Mas eis que na lateral desta claríssima regra um tentador brinquedinho veio ameaçar a sua prática. A diversão/maldade consistia em espetar um graveto no buzanfã da formigona e ficar admirando seu desespero, batendo freneticamente as asas como um ventilador animal. Apesar das recomendações dos mais velhos, não havia uma só criança que não ficasse apaixonada por aquele “brinquedinho”.
Foi então, acho eu, que uma iluminada cozinheira teve a ideia de transformar aquele bumbum avantajado numa, até então impensada, apetitosa farofa. Dona Tanajura subia ao cadafalso infantil, era executada, mas a família a mantinha incluída no menu da temporada. Confesso não ter provas convincentes da origem desse prato. Mas, convenhamos, que faz algum sentido, faz.
A seguir confesso mais um pecado. Praticado também – juro! – em legítima defesa da gula. Durante as férias, na Fazenda de São Pedro, eu partia diariamente, armado de uma boa cavadeira, à caça de... minhocas. Não as matava. Quem acabava com elas eram os Piaus, os Cascudos e as Carás que, na tentativa de arrancá-las do meu anzol, acabavam – os peixes sim! – fisgados por mim. Dessa forma garantiam ótimos almoços.
Não parei por aí, não. Para satisfazer o desejo de Pablo, meu filho mais velho, fiz uma arapuca com os talos de um mamoeiro para capturar umas rolinhas. Ele salivava ao vê-las assadas. Um pouco de canjiquinha embaixo dessa armadilha e era só esperar. Apanhadas de surpresa, as rolinhas seguiam dali diretamente para o forno.
Já o caçula Diego andava querendo experimentar uma preá frita. Então parti para a luta ferrenha. Na fazenda havia uma espingarda Flaubert e foi com ela que atirei no pequeno quadrúpede, naquele charco de Taboas em que ela vivia. Admito que sou muito ruim de pontaria. Errei o tiro mas o barulho do disparo, feito quase junto do ouvido do animal, naquele banhado calmo e silencioso, levaram a preá a um fulminante infarto. E dali ela seguiu direto para a frigideira. Tenho testemunhas: a família toda seguia meus passos e assistiu a esse primeiro e derradeiro tiro da minha vida de caçador. Daí pra frente não matei mais. Nem aula.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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