Pare um pouquinho de ler, tire os óculos de perto e imagine-se agora usando aquele pra longe. Agora dê uma mirada mental naquela porção de ensinamentos que você adquiriu por esta vida afora. Você vai ficar besta de saber o quanto sabe. Coisas aparentemente banais como uma tirinha de tecido limpo amarrada no dedinho do pé consegue, de um dia pro outro, pôr um fim na sua quase insuportável coceira da maldita frieira. Aquela frieira que nasceu depois de um dia inteiro descalço no alagado das taboas, atrás das rãs mais gordas e gostosas que vagueiam ao entardecer.
Não sei se você perdeu a aula de sua mãe, quando viviam no interior, numa breve excursão ao galinheiro. Era pra ter a certeza de que ainda havia galinhas na fila para botar o ovo daquela manhã. A tática é tiro e queda. Um dia, pessoalmente, eu ensino para quem é da cidade grande.
Ah... Quanta coisa a gente sabe e nem se dá conta... Pegar passarinho com o visgo de jaca, encostar a peneira no barranco do córrego e arrancar a cará da loca com mão, arapuca com o talo do mamoeiro pra pegar rolinha... Parece que não, mas somos todos uma vasta enciclopédia.
Quase nem acreditei que eu ainda saiba de cor alguns sonetos e poemas da época de ouro da literatura. “A Ideia”, de Augusto dos Anjos, por exemplo, é um clássico do materialismo : “A ideia, de onde ela vem/ De que matéria bruta vem esta luz / Que cai de incógnitas criptas misteriosas / Como os estalactites de uma gruta/ Vem da psicogenética e alta luta/ Vem o encéfalo absconso que a constringe e esbarra quase morta às portas da laringe/ Tênue, fraca, mínima, raquítica.”
Sei fazer um cavaquinho com um grande gomo de bambu verde e um carretel de linha partido ao comprido. Sei fazer um rádio de cristal de Galena. E ele funciona sem eletricidade, sem pilhas e usando como antena o varal de roupas. Juro por Deus!
Aprendi tanto nesta vida, mas tem coisas que, por mais que eu busque me informar, continuo sem saber. Exemplo: o que fazem os deputados quando não estão discursando nas sessões legislativas? Entendo que não podem prestar muita atenção nos colegas que discursam, porque não podem parar de mexer em seus celulares. Acabada a sessão – uma das três únicas semanais – o que fazem eles? Leem? Não acredito. Talvez pintem e bordem. A verdade é que confesso aqui de público o meu total desconhecimento sobre as possíveis atividades dos nossos legisladores. Prestam serviços comunitários? Acho que não.
A grande verdade é que todos eles são gente como a gente. E como tal merecem todo o nosso respeito e consideração. Apenas carecem de ter mais transparência em seu labor diário pelo qual, aliás, pagamos muito bem. E foi a partir daí que imaginei que pudéssemos fazer uma vaquinha para darmos um big presente de Natal pra estes bem vestidos trabalhadores. Mais do que um presente, uma bela de uma surpresa e que há muito tempo eles vêm merecendo.
O que acham de um incrível e maravilhoso Relógio de Ponto?! Eles vão adorar, tenho certeza.