Sou fã de carteirinha dos chefs de cozinha. Artistas que brilham no palco iluminado das cozinhas do mundo inteiro. São eles que com supertalento acariciam o paladar de nossas línguas e trazem conforto aos nossos estômagos. Chefs não nascem do sopro divino. Dele recebem apenas o sopro criativo que os levam à observação e ao estudo. E o resultado desta mágica salada são os aplausos gerais, sempre merecidos.
Mas não consigo tirar da cabeça uma, pra mim, angustiante dúvida: sem a manteiga, o azeite, o creme de leite e o maçarico, os aplausos ainda seriam de pé? Ou os deixaria empatados com a carne assada e batatas coradas de nossos avós? E o suflê de chuchu da Nazareth talvez disputasse o segundo lugar com o miolo de boi à milanesa de minha saudosa mãe. Vai saber...
Assim como as cozinheiras de nossas famílias vez por outra erram no sal, um chef à vezes também perde ponto no conhecimento geral. Tempos atrás fui conhecer a cozinha do famoso Gastón Acurio. Seu restaurante em Lima, no Peru, foi recentemente eleito o melhor da América Latina. O famoso Astrid y Gaston. Ambiente clean, sem os falsos brilhantes que tanto encantam a turminha que se acha. Pedi um peixe. Um lombinho de peixe grelhado com todas as preciosas especiarias que o prato merecia. O prato e eu, claro. Para adjetivar com apenas uma palavra e uma exclamação: fantástico!
Ao final da refeição, perguntei ao chef, que veio à mesa saber se eu havia gostado, que peixe era aquele. Ele franzia a testa e, ainda meio perdido, mandou ver: “Un pez que vive en el profundo del oceano”. Ele não conhecia o peixe que preparara. Um “pecadito”. Uma pequena falha como a pitadinha de sal a mais da cozinha amadora.
Na cozinha aqui de casa conheço bem quem chega e quem sai da geladeira, da dispensa e do freezer. Registro importante: o produto final vai sempre de mais ou menos a muito bom. Modéstia à parte. Mas suporto bem tímidos aplausos, algumas indiferenças mas a boa educação familiar nunca ousou uma talvez merecida vaia. Ainda que tíbia.
A minha claudicância culinária tem explicação. Minha iniciação como chefinho se deu na prática no quintal de nossa casa em São José do Calçado. À beira da horta, sem avental e panelas adequadas batalhei muito para conseguir alguns bons resultados. E o top de linha era um bem trabalhado bife de lama cru, coberto com canjiquinha orgânica. Sucesso total. Confesso que nunca cheguei a experimentar. Mas quando eu deixava aquela cozinha a céu aberto, os passarinhos faziam a festa. Vocês precisavam ver com que prazer e alegria eles degustavam meus bifes!
A grande verdade é que nós, que frequentamos com assiduidade a beira do fogão, adoramos uns confetes sinceros. Sejam eles atirados por comensais de respeito, sejam até... por gozadores bem inspirados. Como é o caso de João Lino, meu saudoso cunhado. Ele, minha irmã e os filhos viviam em uma cidade próxima à nossa. E sempre que nos visitava minha mãe caprichava ainda mais no almoço.
Numa dessas visitas, depois de todos nós lambermos os beiços, como se dizia, ele se levantou e assustou a todos com sua fala, aparentemente sincera demais: “Minha sogra... o almoço estava delicioso! Acho que a senhora errou a receita!” Choque momentâneo. Mas minha mãe compreendeu logo o elogio.