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Crônica

Assim é (se lhe parece): Vitorinha está bem diferente

Para começar, esse apelido da cidade é uma imperdoável apropriação indébita. Esses padrinhos chegaram muito, mas muito, atrasados. Esse carinhoso diminutivo já tem dono

Publicado em 18 de Setembro de 2022 às 00:10

Públicado em 

18 set 2022 às 00:10
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Praça 8
Praça 8, ilustração da crônica de Marcos Alencar Crédito: Amarildo
Tomo emprestado o título da famosa peça de Pirandello para me ajudar no aprendizado da nova geografia da capital. Um redesenho nascido a partir de um novo conceito territorial centralizador. Para os que aqui cresceram essas mudanças foram como o sopro frio de nosso primo distante, o vento sul. Imagino que a obsessão plantonista do capixaba às mídias sociais e o encantamento dos recém-chegados que aqui se aninharam sejam os responsáveis pelas mudanças.
Uma dessas interferências dói bastante em nossa memória: sem mais nem menos deixaram o relógio da Praça Oito falando sozinho. Ele que passou quase todas as horas e minutos da vida cravado no Centro da cidade, assuntando as conversas no famoso café, ali em frente, e tempos depois conferindo o entra e sai da matriz do banco do Estado, assiste agora a mais uma descompromissada prática do “quem sabe não é melhor assim”. E então ele passa a dividir seu reino com o nascimento do novo Centro urbano expandido.
Assim é que a Vila Rubim e o Parque Moscoso passaram a fazer parte, no atual conceito territorial, de “Centro da cidade”. Centro este que, até então, era formado pela Praça Oito, Praça Costa Pereira, antiga praça da Independência , Cidade Alta (onde ficam a Catedral e a Gaiola de Ouro (apelido dado às casas construídas na encosta, de costas para o Morro da Televisão, endereço de famílias tradicionais. Esse Centro seguia na direção sul até o cruzamento da Rua General Osório. Onde começava o bairro Parque Moscoso. No sentido norte o centro se estendia até quase a escadaria Ilma de Deus, na subida para o Saldanha.
Por falar em Saldanha, mais uma mudança começa a brotar ali. O clube Saldanha da Gama, que reinou por muitos anos no velho Forte de São João, acaba de vestir roupa nova e vem sendo apresentado aos moradores como uma grande atração do...” Centro da cidade”. Logo ele, o Forte de São João, que há décadas empresta o seu nome ao bairro onde está ancorado. E que vai até aos limites de Jucutuquara. Será que o novo centro também vai chegar até lá? O saudoso craque Fontana, orgulho dos moradores do bairro, se vivo fosse bateria de frente com os atacantes.
Outra mixórdia nesta imensa pia batismal. Não é que resolveram apelidar nossa Ilha de “Vitorinha”? Uma imperdoável apropriação indébita. Esses padrinhos chegaram muito, mas muito, atrasados. Esse carinhoso diminutivo já tem dono. Vitorinha era o apelido do saudoso Cine Vitória. Um pequeno, simpático e calorento cinema que ficava quase no início da Avenida Jerônimo Monteiro, no trecho conhecido como Avenida Capixaba. Vitorinha já era ele há décadas. Primeiro e único.
Ah... não me perdoaria se deixasse de registrar aqui que o bar que funcionava ao lado do cinema fazia um picolé de coco inesquecível.
Outros incômodos também nos chegam pela televisão. Às vezes chega a ser meio tensa a preocupação de repórteres e apresentadores no momento em que desejam bom dia e boa tarde aos telespectadores. Até ao meio-dia, para todos eles, é obrigatório o “bom dia”. Daí pra frente é boa tarde até escurecer. Astrologicamente falando, o nosso dia começa com o nascer do sol e vai-se embora com ele. Portanto se eu lhe desejo um bom dia às duas horas da tarde, acho que tá valendo. Podemos guardar o boa tarde pro final do dia. Salvo melhor juízo.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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