Aquele largo na Praia do Canto, onde plantaram uma rotatória, bem no início da ladeira de acesso ao Barro Vermelho, tem nome. Batizado há muitos anos, esse logradouro ainda aguarda ser apresentado aos capixabas. Sentado no toco, vive na esperança de que a Prefeitura de Vitória arregaçasse as mangas e viesse dar à luz, de fato, ao carinhoso projeto do saudoso vereador desembargador Hélio Gualberto. Chama-se Praça do Cronista Capixaba.
Quando sugeri a homenagem e o local ao professor Hélio Gualberto, ele abriu um sorriso e me disse: “É pra já!” E assim o fez. Mas os anos foram passando e a talentosa criança continua ainda sem que seu umbigo tenha sido cortado. À época sugeri também que ali se plantasse um busto da querida cronista Carmélia Maria de Souza. Continuo na antessala da maternidade. Tomara que o atual prefeito termine de uma vez por todas esse parto.
Acordei para esse assunto depois que um estudante de psicologia me abordou na fila do supermercado. Logo depois de terem gritado pelo meu nome e sobrenome, como fazem meus amigos mais próximos. O estudante identificou-se como meu leitor, disse-me admirador dos cronistas aqui da terra e pediu-me que lhe desse umas dicas para uma boa crônica. Queria também dar umas braçadas nos mares azuis da literatura.
Apesar de escrever desde a adolescência, não sou mestre no assunto. Acerto e erro como um amante inseguro. Mas concordei em falar da minha experiência e de lhe soprar algumas observações que poderiam servir de ajuda na realização de seus sonhos.
Para início de conversa falei da importância de se ler de tudo um pouco. Grandes autores, péssimos autores, revistas de fofocas, “filósofos” das redes sociais, bulas de remédios, folhetos de propaganda, obituários, tudo, tudo... é importantíssimo ficar íntimo das palavras e do bom e do mau uso que fazem delas.
É fundamental, principalmente, que se tenha um altíssimo grau de observação e uma apurada visão crítica do mundo a nossa volta. Em algumas pessoas, essa qualidade é nata. Mas também é possível desenvolver a curiosidade com a prática diária. Experimente se exercitar dentro de um ônibus urbano, por exemplo. Procure ficar bem atento a mudança frequente do cenário à sua volta, ao entra e sai de passageiros. Depois tente se lembrar do que viu: fisionomias, roupas, sapatos, cabelos, adereços curiosos, olhares tristes, felizes, preocupados, sacanas... tente também guardar pedaços de conversas que andou ouvindo. É o cenário ligeiro, mas muitas das vezes revelador, que passa diante de seus olhos através das janelas do coletivo. No início talvez valha a pena anotar algumas cenas numa caderneta para futuras consultas. Depois, o seu gravador mental, já mais treinado, dará conta do recado.
Na primeira vez em que você tentar olhar “com olhos de ver”, você será capaz de se lembrar de uma meia dúzia de imagens reveladoras. Com o tempo, uma ida de Camburi ao Centro da cidade vai lhe render um samburá de assuntos. Enriqueça essa prática em diversos outros ambientes. O movimento dos consumidores dentro de supermercados, dos fiéis nas igrejas, no alvoroço dos bares, no vai e vem nos calçadões, praias... o mundo inteiro tem material para crônicas pra lá de metro.
E lembre-se sempre de que a crônica é um saboroso sanduíche, recheado com os fatos do quotidiano e temperados com a magia de sua imaginação. Nem precisa levar ao forno. Bom apetite.