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Crônica

50 anos não é muito. Só meio século

Aqui e ali, pequenas e grandes mudanças tornaram nossa vida mais confortável. Por exemplo: ninguém mais cata o arroz para levar à panela. Nem o feijão

Públicado em 

08 jan 2023 às 00:15
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Crônica
Crédito: Amarildo
Há cinquenta anos  — um pouco mais, um pouco menos — o que até então parecia definitivo em nossas vidas foi aos poucos botando as manguinhas de fora. Aqui e ali, pequenas e grandes mudanças tornaram nossa vida mais confortável. Por exemplo: ninguém mais cata o arroz para levar à panela. Nem o feijão.
A qualidade do pão de sal é que deu uma desandada. O pãozinho francês era muito mais gostoso. Não era inchado e branquelo como é hoje em dia. Mas as vantagens seguem estendendo o tapete para todo nós. Hoje, ninguém mais faz fila nas ruas atrás da carrocinha do leite, garrafa na mão, para levar para casa. Nem corre até o quintal pra rachar lenha e fazer o almoço.
Deixamos de matar o leitão que roncava no chiqueirinho e se alimentava da lavagem, os restos de comida da casa. E nunca mais degolamos um frango e o depenamos para assar no domingo. Todo mundo, quer dizer, quase todo mundo, vive (a maioria sem se dar conta) confortavelmente com a água encanada. Nada de água da cacimba, como a gente chamava os poços artesianos.
Ir ao cinema era um programão. Hora de namorar, reencontrar os amigos, comer pipoca e dar umas voltas na praça, na saída. Hoje existem cinemas nos shoppings, mas não é a mesma coisa. Atualmente os artistas dão mole mesmo na sala de nossas casas. E em nossos quintais só uma imensa minoria colhe tomates, alfaces e couves. A grande e variada colheita é feita hoje nos mercadinhos. Claro que facilitou a vida, mas deixamos pra trás um inesquecível prazer. Como arrancar do canteiro um rabanete novinho. Tirar do pé uma meia dúzia de quiabos. E numa mãozada só levar pra dentro de casa a salsa, o coentro e a cebolinha.
Ah... e que pena que tenham ficado na poeira da estrada o bolero, o foxtrote e o sambinha maneiro. Levamos uma manta danada com a troca pela música sertaneja e outros “meu Deus me acuda” que os rádios andam tocando.
O ar-refrigerado foi uma grande conquista. Antes dele a gente dormia debaixo de uma ventania. Ou então, como se diz, ficava “morrendo” de calor. E o assoalho, encerado sempre aos sábados, deixava o chão brilhando que dava gosto. E os joelhos, por outro lado, ficavam em petição de miséria.
Mas o saldo positivo da nossa evolução é indiscutível. Nunca mais vi alguém com caxumba. Nem com varíola nem catapora. Muito comum na garotada na metade dos cinquenta anos atrás. O "zap" facilitou a vida de todo mundo, sem dúvida. Mas confesso que sinto saudades dos telegramas espertamente resumidos para se pagar menos aos correios. Um triste registro: vem saindo de cena uma legião de mães doceiras. Aquelas que deixavam a gente lamber a colher de pau depois do doce pronto.
"C'est la vie", como se dizia quando todos nós ainda estudávamos francês no colégio. Na sexta, 6 de janeiro de 2023, Nazareth e eu comemoramos 50 anos de casados. Parece que foi ontem. Talvez anteontem. Dias, semanas e meses de uma parceria maneira. Vivendo de braços dados com o bom humor e trazendo na memória só as coisas boas do passado. Uma vida feliz, descendo juntos as águas mansas de um rio que parece não ter pressa de chegar ao oceano. Valeu! Como valeu.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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