Com colaboração de Joanna Vieira, advogada do Mendonça e Machado Advogados
As empresas familiares desempenham um papel crucial na economia, representando uma parcela significativa do Produto Interno Bruto e gerando milhões de empregos no Brasil. No entanto, a transição de liderança nessas organizações é um dos maiores desafios enfrentados por seus gestores.
Dados indicam que apenas 30% das empresas familiares conseguem sobreviver à segunda geração, e esse número cai para 15% na terceira. O principal motivo? A ausência de um planejamento sucessório estruturado e a falta de preparo dos herdeiros.
Preparar a nova geração para assumir a liderança de uma empresa familiar exige mais do que a simples transferência de controle e propriedade. Trata-se de um processo estratégico que envolve capacitação técnica, alinhamento de valores e fortalecimento de competências de gestão. Sem essas etapas, há riscos concretos de conflitos internos, decisões equivocadas e até mesmo a inviabilidade do negócio.
Apesar da importância da profissionalização do processo de formação dos herdeiros, é fundamental desmistificar o que significa “profissionalizar a empresa familiar”. A profissionalização não significa, necessariamente, substituir a liderança familiar por gestores externos. Ao contrário, trata-se de adotar práticas de gestão estruturadas e baseadas em princípios de governança corporativa, que podem ser conduzidas tanto por membros da família quanto por executivos de fora dela.
O objetivo é criar um sistema de gestão que promova eficiência, transparência e continuidade, independentemente de quem ocupa os cargos de liderança.
Uma das práticas mais eficazes no preparo dos sucessores é a vivência externa ao negócio familiar. Incentivar os herdeiros a buscar qualificação acadêmica e experiência profissional fora da empresa expande sua visão sobre o mercado e ajuda a desenvolver habilidades gerenciais. Esse tipo de experiência permite que os futuros líderes tragam inovações para o negócio, fortalecendo a competitividade da empresa sem comprometer os valores que sustentam o legado familiar.
Além disso, muitas empresas familiares têm adotado programas de mentoria estruturada, nos quais os sucessores recebem orientação direta dos gestores atuais ou de conselheiros experientes. Esse acompanhamento é essencial para que os futuros líderes compreendam as dinâmicas internas da organização e desenvolvam a confiança necessária para tomar decisões estratégicas.
Outro ponto fundamental é a criação de protocolos familiares, que estabelecem critérios claros para a atuação dos herdeiros na empresa. Esse documento pode incluir requisitos de qualificação, regras para a ocupação de cargos de liderança e diretrizes sobre remuneração e divisão de responsabilidades. O protocolo familiar não é apenas uma formalização das regras, mas um instrumento para alinhar expectativas e fortalecer os laços de confiança entre os membros da família.
A preparação da nova geração para a liderança exige, portanto, uma abordagem equilibrada, que valorize tanto os aspectos técnicos quanto os emocionais. O papel dos fundadores é essencial, pois eles têm a responsabilidade de transmitir não apenas a gestão do negócio, mas também os valores e a cultura que moldaram o sucesso da empresa ao longo dos anos.
A profissionalização de uma empresa familiar é, na verdade, um processo de fortalecimento interno que harmoniza os valores da família com as melhores práticas de gestão. Investir no preparo dos herdeiros é mais do que uma estratégia de sobrevivência, é uma forma de preservar o legado familiar e garantir que a empresa continue prosperando nas mãos das futuras gerações.