Coser X Jack Rocha: disputa pelo comando do PT-ES esquenta (não só) nos bastidores
Eleição marcada
Coser X Jack Rocha: disputa pelo comando do PT-ES esquenta (não só) nos bastidores
Deputado estadual uniu forças com Iriny Lopes e tem o apoio da maioria dos mandatários do Partido dos Trabalhadores no estado. Atual presidente está em busca da reeeleição
O deputado estadual João Coser e a deputada federal Jack RochaCrédito: Lucas S. Costa/Ales e Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
A deputada federal Jack Rocha preside o Partido dos Trabalhadores no Espírito Santo desde 2019 — ela cumpriu o mandato de quatro anos e ganhou mais dois, a partir de 2023, quando a direção nacional da sigla prorrogou a vigência de todos os diretórios estaduais. Jack está em busca de mais um mandato à frente da sigla e vai disputar o PED (Processo de Eleição Direta) no dia 6 de julho. Um adversário, entretanto, já está pronto para a disputa: o deputado estadual João Coser entrou para valer na corrida.
Coser tem a seu lado os principais mandatários do PT no estado: o deputado federal Helder Salomão, o senador Fabiano Contarato, os vereadores de Vitória Karla Coser (filha do deputado) e de Vila Velha Rafael Primo, além da deputada estadual Iriny Lopes.
A aliança com a parlamentar, aliás, chama a atenção, já que, em 2019, Coser apoiou a eleição de Jack Rocha contra o grupo de Iirny e Helder. Agora, diversas tendências internas do PT se uniram para desafiar o atual comando estadual.
"Nós, membros das tendências Alternativa Socialista (AS), do Campo Pra Voltar a Sonhar (PVS): Articulação de Esquerda, Democracia Socialista e Resistência Socialista e DEPAR (Democracia e Participação), após amplo diálogo, decidimos nos unir para disputar o Processo de Eleição Direta (PED 2025)", diz nota divulgada por Coser no último sábado (19).
Coser x Jack Rocha: disputa pelo comando do PT-ES esquenta (não só) nos bastidores
O deputado é da Alternativa Socialista. Iriny, da Articulação de Esquerda. Eles costuraram um acordo. Se a chapa for eleita, o deputado vai presidir o PT por dois anos e então vai renunciar à função para que a vice, Iriny, assuma.
A junção dos grupos foi a saída encontrada para viabilizar uma vitória contra Jack Rocha e aliados, que são da tendência Construindo um Novo Brasil (CNB), a mais forte, numericamente, no partido.
A CNB, por exemplo, é a corrente à qual o presidente Lula pertence, assim como a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e o ex-prefeito de Araraquara Edinho Silva, o preferido de Lula para presidir o PT nacional.
Voltando ao Espírito Santo, por que o grupo de Coser e Iriny se insurge contra Jack Rocha?
Nos bastidores, a disputa está pegando fogo. Há críticas sobre a gestão do atual diretório estadual, desde centralização de decisões ao desempenho do partido nas eleições municipais de 2024. Apontamentos esses já rebatidos por um aliado da presidente em entrevista à coluna.
O próprio Coser, nesta terça-feira (22), entretanto, destacou que decidiu concorrer "não contra a Jack", mas a favor da alternância de poder no partido.
"Não há precedente na história do PT alguém presidir por dez anos", afirmou. Se reeleita, Jack Rocha teria mais quatro anos de mandato que, somados aos seis já exercidos, resultaria em uma década à frente da legenda.
"Pedimos à Jack que fizesse naturalmente a alternância, em uma gestão compartilhada com o nosso grupo. Como não conseguimos, nós nos voltamos para a Articulação de Esquerda e para o Campo Voltar a Sonhar", narrou o deputado estadual.
O acordo que prevê dois anos de presidência para Coser/dois anos para Iriny foi divulgado aos filiados. São eles que vão votar e decidir o comando do partido nos âmbitos nacional, estadual e municipal.
O deputado estadual presidiu o PT do Espírito Santo entre 2014 e 2018.
Como plataforma de campanha, o deputado promete realização de reuniões do diretório estadual com frequência, convocação antecipada e pauta definida. "Este ano, não tivemos uma reunião da Executiva estadual ainda. Trocou o presidente dos Estados Unidos, morreu o papa, e o PT do Espírito Santo nem se reuniu", provocou Coser.
Aliados do deputado contaram à coluna que a ausência de reuniões e a constante falta de quórum, o número mínimo de participantes para sustentar os encontros, são vistas como "manobras" de Jack Rocha para tomar decisões de forma centralizada.
"O resultado das eleições de 2024 também pesou muito (para a decisão de disputar contra Jack Rocha). Saímos de 11 para apenas 13 vereadores em todo o estado, é tipo o mesmo número de vereadores que o Agir (um partido pequeno) tem. Isso é um absurdo. A direção estadual deu prioridade, na campanha do ano passado, para candidatos da corrente da Jack e, o pior, não elegeu nenhum (da CNB)", comentou um crítico da atual presidente estadual do PT.
Apesar disso, Coser e aliados não descartam uma eventual aproximação com o grupo da deputada federal. O difícil seria chegar a um consenso sobre os termos do acordo, dadas as tramas intrincadas formadas até agora.
Um dos principais aliados de Jack Rocha no PT é o secretário de Esportes do governo Renato Casagrande (PT), o ex-deputado estadual José Carlos Nunes. Ele faz parte da CNB e coordenou a campanha da parlamentar à Câmara dos Deputados em 2022.
Para Nunes, as críticas do grupo de Coser não têm fundamento. "Eles falam isso de falta de reunião, mas é algo normal. Nos municípios comandados pelos grupos deles (diretórios municipais do PT), é a mesma coisa. Quando a gente tem uma pauta que merece uma discussão profunda, fazemos reuniões. Quando não tem pauta urgente, as coisas vão acontecendo. O grupo da Jack nunca se furtou a fazer o debate, seja em reuniões presenciais ou on-line", rebateu.
"Sobre eleição de vereadores (resultado ruim em 2024), isso é uma questão de conjuntura, não é um problema só do Espírito Santo", continuou.
Quanto à necessidade de renovação da liderança, o aliado de Jack Rocha defende que ela, por ser jovem, negra e ter menos tempo de militância partidária que Coser e Iriny, por exemplo, é que seria a verdadeira renovação: "João Coser e Iriny já foram presidentes, então isso nem faz sentido".
"Esse movimento nos surpreendeu, porque ele (Coser) se juntou a um grupo que sempre foi contrário a ele, mas é normal haver disputa. É da democracia", pontuou Nunes.
"Espero que isso não tenha a ver com as eleições de 2026", completou.
"O João (Coser) vai ser candidato a deputado federal, mas espero que esse movimento dele não tenha a ver com isso, pois seria algo movido por interesse pessoal e não do partido"
José Carlos Nunes (PT) - Secretário estadual de Esportes
Apesar das declarações ácidas, Nunes também não descarta que haja a união entre os grupos de Coser e Jack Rocha.
"Poderíamos propor a ele um acordo, como o que ele fez com a Iriny: Jack seria reeleita e presidiria o partido por dois anos, renunciaria e, por outros dois anos, João Coser seria o presidente estadual".
Coser, porém, em entrevista à coluna, já rechaçou a ideia: "Fiz um acordo com a Iriny e vou cumprir. E como poderíamos confiar que ela (Jack), que já ficou seis anos, renunciaria à presidência após dois anos de mandato? Pela regra, se reeleita, ela poderia ficar os quatro anos".
Sobre o tópico "eleições 2026", o parlamentar afirmou que sua candidatura ao comando do PT-ES "não tem a ver" com suas pretensões em relação ao pleito do ano que vem.
Coser confirmou que vai disputar uma cadeira de deputado federal e reforçou que a prioridade do PT, se a chapa dele for a vencedora, vai ser reeleger Contarato no Senado e ampliar as bancadas na Câmara e na Assembleia Legislativa. "Há também a possibilidade de lançar candidatura ao governo do estado, o que ainda está em discussão".
A coluna fez contato com Jack Rocha, mas até a publicação deste texto ela não havia concedido entrevista.
O PED
O processo eleitoral do PT vai ser realizado no dia 6 de julho de 2025, das 9h às 17h. Os filiados vão votar e decidir, no mesmo dia, quem vai comandar os diretórios nacional, estaduais e municipais da sigla.
De acordo com o regulamento, podem votar "filiados (as) que tenham registrados seus pedidos de filiação no sistema (Sisfil) até o dia 28 de fevereiro de 2025, desde que não tenham sido impugnados de acordo com as normas estatutárias".
"A votação será secreta e na cédula de votação ou urna eletrônica deverão constar os nomes dos (as) candidatos(as) a presidente e das chapas inscritas, de acordo com modelo a ser aprovado pela instância nacional, que deverá ser obrigatoriamente adotado em todos os municípios".
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, o PT tem 29.186 filiados no Espírito Santo (dados de outubro de 2024). Fica atrás apenas do MDB, que registra 36.359 filiados.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.