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Leonel Ximenes

Fim do mistério: acidente de helicóptero com Paulo Hartung é esclarecido

Coluna publica conclusão do relatório da Aeronáutica sobre o acidente aéreo ocorrido há mais de quatro anos com o então governador do ES

Públicado em 

24 out 2022 às 15:25
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

Helicóptero em que estava Paulo Hartung caiu na região de Pedra Azul
Helicóptero em que estava Paulo Hartung caiu na região de Pedra Azul Crédito: Marcelo Prest - 10/08/2018
Mais de quatro anos após o acidente de helicóptero envolvendo o então governador do Espírito Santo Paulo Hartung, no dia 10 de agosto de 2018, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), do Comando da Aeronáutica, finalizou o relatório do incidente na Fazenda do Incaper, em Domingos Martins. A publicação data de 21 de setembro deste ano.
Segundo os investigadores, no período da tarde, no momento do incidente, a iluminação natural no local do acidente era reduzida em virtude da sombra produzida pela topografia do lugar. “Após o primeiro impacto, o helicóptero se desestabilizou e iniciou um giro sem controle à esquerda, o que resultou na colisão do rotor principal contra o terreno e no tombamento da aeronave para a direita. Os destroços ficaram agrupados no centro do campo de futebol”, detalha o relatório.
De acordo com a publicação, os pilotos relataram que as condições meteorológicas eram favoráveis ao cumprimento da missão. Havia uma névoa seca, que não afetou a operação, e eles se mantiveram em condições visuais durante todo o voo.
Os investigadores frisaram que a trave, que estava no meio do campo, não permitia visibilidade adequada: “A pintura da trave era da cor cinza, estava bastante desgastada e apresentava ferrugem em diversos pontos, oferecendo pouco contraste em relação ao gramado do local”.
Por ser um voo rotineiro para o piloto responsável, o relatório destaca que “é provável que ele (piloto) não esperasse encontrar um obstáculo no local onde rotineiramente posicionava o helicóptero”.
Imagem da trave atingida pelo helicóptero que consta do relatório do Cenipa
Imagem da trave atingida pelo helicóptero que consta do relatório do Cenipa Crédito: Cenipa/Divulgação
Neste sentido, o Cenipa aponta falha por parte da segurança do governador. “A decisão de prosseguir com o pouso sem o apoio da equipe de solo da Casa Militar do Governo para informar se a área estava ou não livre de obstáculos, conforme a doutrina consolidada na UAP (Unidade Aérea Pública), caracterizou a inadequada avaliação dos possíveis riscos envolvidos na operação, assim como uma inadequação dos trabalhos de preparação para o voo”.
Nas entrelinhas, o relatório destaca uma possível pressão por ter o chefe do Poder Executivo estadual como passageiro. “Adicionalmente, o fato de ter a maior autoridade do Estado como passageiro pode ter acarretado pressões autoimpostas para que o voo fosse concluído no menor tempo possível. Essa condição poderia produzir dificuldades para perceber, analisar e escolher a alternativa mais adequada, comprometendo a qualidade do processo decisório da tripulação”, avalia o documento.
A investigação apontou ainda para uma possível sobrecarga sobre o piloto da aeronave. De acordo com informações prestadas ao relatório, ele havia voado na terça e na quarta-feira daquela semana. No dia da ocorrência, uma sexta-feira, o piloto trabalhou em tarefas administrativas da organização no período da manhã e, posteriormente, realizou dois voos.
“O primeiro foi um voo aeromédico. Em seguida, ele efetuou mais um voo para atender a uma ocorrência policial. Ele relatou que foi acionado para efetuar o transporte do governador do Estado e sua esposa para a Fazenda do Incaper enquanto realizava o debriefing da missão policial (o segundo voo do dia) e, por essa razão, não teve tempo de almoçar.”
Helicóptero em que Paulo Hartung estava bateu em trave antes de cair
Helicóptero em que Paulo Hartung estava bateu em trave antes de cair Crédito: Marcelo Prest - 11/08/2018
Assim sendo, “verificou-se que, na semana em que se deu esta ocorrência, o piloto também estava envolvido com uma quantidade significativa de afazeres particulares”.

OS QUATRO FATORES QUE CONTRIBUÍRAM PARA O ACIDENTE, SEGUNDO O RELATÓRIO

  1.  JULGAMENTO DA PILOTAGEM: “A decisão de prosseguir com o pouso sem o apoio da equipe de solo da Casa Militar do Governo para informar se a área estava ou não livre de obstáculos, conforme a doutrina consolidada reportada aos investigadores, caracterizou a inadequada avaliação dos riscos envolvidos na operação sem tal informação.”
  2.  PERCEPÇÃO: “A pintura desgastada da trave na cor cinza (que oferecia pouco contraste em relação ao gramado do campo de futebol), a iluminação natural reduzida e o fato de o piloto não prever o obstáculo no local onde rotineiramente se posicionava o helicóptero, prejudicaram a capacidade do piloto de identificar o obstáculo e levaram à redução do seu nível de consciência situacional.”
  3. PLANEJAMENTO DE VOO: “As atividades de planejamento e de execução nos âmbitos administrativo e operacional, dado ao acionamento desse tipo de missão sem um tempo adequado para o planejamento e para a execução dos preparativos no local de destino, foram consideradas insuficientes para a manutenção do Nível Aceitável de Segurança Operacional (NADSO).
  4. SUPERVISÃO GERENCIAL: “A ausência do pessoal de apoio no momento do pouso e o acúmulo de tarefas do piloto caracterizaram uma supervisão inadequada, pela gerência (não tripulantes) da organização, das atividades nos âmbitos administrativo e operacional.”
A partir deste acidente, o relatório do Cenipa faz a seguinte recomendação de segurança: “Atuar junto à Unidade Aérea Pública (UAP) da Secretaria da Casa Militar do Governo do Estado do Espírito Santo no sentido de que aquele operador aprimore a política, os procedimentos, as instruções e as orientações constantes em seu Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional (SGSO), particularmente no que concerne aos requisitos gerais para o gerenciamento do risco estabelecidos na letra (d) da seção 91.131 do RBAC 90”.

Leonel Ximenes

Iniciou sua história em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De lá para cá, acumula passagens pelas editorias de Polícia, Política, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Também atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 é colunista. É formado em Jornalismo pela Universidade Feedral do Espírito Santo.

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