O Espírito Santo é um dos Estados do país mais expostos ao risco de tempestades afetar o abastecimento de água, com 22% de seus municípios em situação de risco alto e 78% com risco muito alto. Os dados são de um estudo inédito, do Instituto Trata Brasil em parceria com a WayCarbon, que analisa os impactos das mudanças climáticas nos serviços de
saneamento básico.
Nenhum dos 78 municípios capixabas conseguiu índices de risco considerados muito baixos, baixos e nem sequer médios, segundo a pesquisa que projeta os impactos das mudanças climáticas sobre o saneamento básico, incluindo abastecimento de água e esgotamento sanitário, até 2050.
O estudo avalia os riscos associados a tempestades, ondas de calor e secas, levando em conta a vulnerabilidade e a exposição das regiões e dos sistemas de saneamento.
De acordo com o Trata Brasil, os locais que apresentaram maiores índices de risco com tempestades são aqueles que dependem de mananciais exclusivamente superficiais, sujeitos ao acúmulo de sedimentos. Nessas regiões, há um grande volume de precipitação máxima em cinco dias nos cenários climáticos futuros.
Após um evento de chuvas constantes, esses mananciais sofrem com o acúmulo de sedimentos, reduzindo a qualidade da água bruta e aumentando os desafios para o tratamento.
Segundo o levantamento “As Mudanças Climáticas no Setor de Saneamento: Como tempestades, secas e ondas de calor impactam o consumo de água?”, publicado em novembro, outros Estados, como Rio de Janeiro e Goiás, também figuram entre os mais vulneráveis a eventos de tempestades.
Para reduzir os riscos climáticos e proteger o abastecimento de água, o estudo considera essencial uma ação coordenada entre governos e empresas de saneamento.
Entre as medidas necessárias, aponta o Trata Brasil, estão o fortalecimento da infraestrutura de captação e tratamento de água e esgoto, a modernização dos sistemas de monitoramento e controle de qualidade da água e investimentos em tecnologia, como o reúso, contribuindo para a diversificação das fontes de água.
Além disso, políticas públicas voltadas à gestão integrada e sustentável dos recursos hídricos, aliadas ao incentivo de práticas de conservação e reúso de água, são indispensáveis para garantir a segurança e a disponibilidade hídrica à população diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Em seu site, a
Cesan, a companhia de abastecimento e saneamento que está presente em 53 dos 78 municípios do Espírito Santo (73% do total), diz que quando chove muito o abastecimento de água para a população pode ser afetado.
“Isso acontece por causa da grande quantidade de lama e outros detritos que as chuvas levam para o leito dos rios. São as florestas, nos topos dos morros, e as matas ciliares, nos fundos dos vales, que protegem os cursos d'água e impedem que todo esse material chegue ao rio. Porém, como essas áreas estão degradadas, há uma piora expressiva na qualidade da água que a Cesan capta nos períodos de chuva forte, dificultando o tratamento e obrigando a Empresa a paralisar estações de tratamento com mais frequência para a lavagem de filtros”, diz a empresa.
O problema se agrava com as mudanças climáticas, objeto do estudo do Instituto Trata Brasil: “Com as chuvas fortes cada vez mais frequentes por causa das mudanças climáticas e sem as florestas que protegem rios, córregos e lagos, os sedimentos se movem com velocidade e chegam ao leito, aumentando a turbidez (lama) na água”, explica a Cesan.
A companhia diz também que o fluxo intenso ainda pode provocar o deslizamento das encostas e das margens, elevando a quantidade de resíduos e de terra na água. “O nível de turbidez se eleva muito e, nessa condição, a captação de água é suspensa até que o manancial ofereça condições de tratamento para distribuição com qualidade para a população. Mesmo após o fim das chuvas, essa condição pode perdurar durante algum tempo, até que a vazão de água no rio se normalize”, destaca a empresa do
governo do Estado.