Sempre falamos sobre a importância da educação para a formação dos jovens e o desenvolvimento do país, mas normalmente a educação é entendida em sentido estrito, significando somente disciplinas como português, matemática e ciências. Há um outro sentido, o de cultura e arte, que também precisa ser valorizado por nossas lideranças políticas, para o nosso desenvolvimento na acepção mais plena, para além da economia e da geração de riqueza material.
Em seu já clássico livro “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, o historiador israelense Yuval Harari observa que a cultura, a linguagem e a capacidade de comunicação é o que nos diferencia dos demais macacos e é o que possibilitou a evolução da nossa civilização.
De tribos ancestrais com no máximo 150 indivíduos, aproximadamente, há 70 mil anos, evoluímos para uma civilização global com mais de 7 bilhões de pessoas, organizadas em cidades e nações com seus códigos de convivência, expressos ou tácitos.
Cada cidade e cada região tem a sua própria história, a sua própria cultura, com suas lendas, personagens e manifestações artísticas, e isso também tem alto valor econômico. A economia criativa representa 2,6% do PIB no Brasil, fatia maior do que a de muitos setores tradicionais.
O Banco Mundial estima que a cadeia produtiva da cultura responde por 7% do PIB global, o que significa que temos o potencial de pelo menos triplicar a riqueza gerada pela nossa economia criativa, com impactos positivos no turismo, no comércio e demais atividades econômicas.
Nossas elites dirigentes estarão devidamente atentas a esse potencial? Em artigo postado em suas redes dias atrás, sob o título “Procura-se uma nova classe alta”, o publicitário Nizan Guanaes faz uma crítica à falta de educação de parte da elite: “Dinheiro sem livro faz garotos ruidosos e meninas caladas. Gente mal vestida com as melhores grifes. E que não sabe se comportar no mundo. Gente caipira. A começar, não sabem falar inglês, inaceitável num mundo globalizado. O mais lamentável é que falam mal português também”.
A vida social nos EUA e no Reino Unido transcorre entre universidades e museus, combinando caridade, diversão e cultura, lembra Nizan. Uma elite formada em Harvard, Yale, Stanford, Oxford e Cambridge valoriza a cultura e a civilização em sentido mais amplo.
O gestor cultural Marcelo Lages, com vasta experiência nacional e internacional, costuma dizer que o Brasil faz uma distinção entre educação e cultura – como no antigo MEC, Ministério da Educação e Cultura, hoje chamado apenas de Ministério da Educação – que não existe nos EUA e Europa. Cultura faz parte da educação, e o ensino nas escolas inclui visitas a grandes museus e teatros.
E o Espírito Santo nessa história? Penso que demos um passo importante neste ano, com a nova Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC), lançada em fevereiro pelo governo do Estado. A medida contou com o apoio da Findes, com a colaboração do próprio Marcelo Lages, na época de sua elaboração.
Ela abre a possibilidade de financiamento de projetos culturais, por meio de empresas que poderão compensar o valor do ICMS, destinando parte do imposto para projetos do setor, de qualquer formato ou linguagem cultural, como mostras, feiras e festivais, planos anuais de temporada de grupos estáveis de música e dança, revitalização de patrimônio arquitetônico, entre outros.
A lei é nova e talvez ainda pouco conhecida de parte do empresariado, mas com o tempo tende a se transformar numa potente ferramenta para alavancar a cultura local.
Precisamos também valorizar os nossos espaços culturais. O Teatro Carlos Gomes, inaugurado em 1927, passou os últimos 4 anos fechado, antes mesmo da pandemia, e agora está em nova reforma, prevista para ser entregue somente em 2024.
O Cais das Artes, obra monumental de Paulo Mendes da Rocha, iniciada em 2008, está paralisado desde 2015. O projeto talvez seja retomado no segundo semestre, e há um debate na cidade sobre sua utilização, que poderia contemplar arte e tecnologia.
Não se trata aqui de responsabilizar gestão A ou B, mas o fato de espaços tão relevantes terem um histórico de obras e reformas infinitas pode dizer algo sobre nossa elite. E talvez estejamos num processo de mudança.
Outra iniciativa interessante é o Parque Cultural Reserva Vitória, na Enseada do Suá, atrás do Shopping Vitória, construído por um empreendimento imobiliário e doado à Capital, em setembro do ano passado. O projeto de paisagismo é do Escritório Burle Marx, com obras de artistas como os capixabas Sandro Novaes e Vilar, e José Bechara, José Spaniol, Adrianna EU, Thainan Castro e Antônio Bokel.
Esperamos que todas essas iniciativas, especialmente a nova lei de incentivo à cultura, ajudem a transformar a cena cultural capixaba, inserindo de vez o nosso Estado no circuito nacional e internacional do setor. Da mesma forma, devemos fazer com que a cultura seja valorizada nas escolas, para a formação de nossos valorosos jovens e futuros líderes. Essa formação cultural deve começar o mais cedo possível, como ocorre nas nações mais desenvolvidas.