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Saúde

Pílulas ou canetas emagrecedoras? Agora é à la carte

Os agonistas de GLP1 foram desenvolvidos originalmente na forma injetável porque são peptídeos, moléculas grandes, que seriam fragmentadas pelas enzimas digestivas, dificultando seu acesso à corrente sanguínea, impedindo sua ação medicamentosa

Públicado em 

09 abr 2026 às 05:00
Lauro Ferreira Pinto

Colunista

Lauro Ferreira Pinto

No ano passado, a chegada do Mounjaro (tirzepatida) ao Brasil revolucionou o tratamento da diabetes e da obesidade, somando-se à semaglutida (Wegovy) que já estava disponível desde 2024. A rapidez e eficiência da perda de peso, sempre uma tormenta para os obesos, se traduziram rapidamente em uma febre de consumo, afetando até mesmo o menu de vários restaurantes que tiveram que adotar versões mais minimalistas de alguns de seus pratos para os usuários das canetas...
Nos Estados Unidos, personalidades como a tenista Serena Williams, a apresentadora de TV Oprah Winfrey e a atriz Whoopi Goldberg, todas admitiram publicamente o uso das canetas para perder peso. Um problema continua sendo o preço elevado que afasta e dificulta o acesso de enormes parcelas de obesos com dificuldades financeiras, até mesmo para dietas menos calóricas.
Dia 20 de março passado caiu a patente da semaglutida no Brasil, selando o fim da exclusividade da farmacêutica Novo Nordisk, permitindo que outros laboratórios produzam versões genéricas ou similares, com projeção de queda de preço. De qualquer forma, as canetas exigem, via de regra, aplicações semanais. E muita gente não gosta de agulhas...
Estão surgindo agora agonistas do receptor GLP1 em forma de pílulas de uso oral. Em dezembro do ano passado, foi aprovada pelo FDA, nos EUA, a pílula Wegovy, a primeira disponível. Uma nova droga chamada orforglipron também foi aprovada nos EUA agora em abril. Esta será produzida pela Eli Lilly, de Indianapolis, Indiana, a mesma fabricante do Mounjaro, com o nome de Foundayo. A pílula da novo Nordisk já foi submetida à Anvisa no Brasil.
Os agonistas de GLP1 foram desenvolvidos originalmente na forma injetável porque são peptídeos, moléculas grandes, que seriam fragmentadas pelas enzimas digestivas, dificultando seu acesso à corrente sanguínea, impedindo sua ação medicamentosa. Assim, as grandes farmacêuticas “empacotaram” esses medicamentos em seringas (canetas), cujo conteúdo é injetado no tecido gorduroso sob a pele, permitindo sua liberação plena e consequente ação.
Agora as farmacêuticas estão desenvolvendo agonistas de GLP1 em pílulas que possam ser absorvidas no estômago. Mas a biodisponibilidade dessas primeiras drogas é de apenas 1 a 2%, o que significa que apenas essa fração do conteúdo da pílula irá atingir a corrente sanguínea, o que implica que a maior parte do conteúdo será desperdiçada para atingir esse objetivo, resultando em quantidades enormes do princípio ativo para serem manipulados nos comprimidos.
Idosos usando canetas emagrecedoras
Idosos usando canetas emagrecedoras Crédito: Shutterstock
Os resultados de ensaios clínicos com essas pílulas foram muito bons, com cerca de 11% de perda de peso após um ano de orforglipron oral  e 14% com a semaglutida oral.
A pílula Wegovy oral precisa ser tomada em jejum com um copo de, no máximo, 120 ml de água. Será preciso esperar 30 minutos para comer, beber ou usar outros medicamentos. O Foundayo não parece ter essas exigências.
Várias outras aplicações clínicas estão sendo estudadas para essas drogas agonistas de GLP1. Dados ainda preliminares sugerem que essas drogas podem ter efeitos benéficos em pessoas com demência, doença de Parkinson e mesmo alcoolismo. Uma hipótese aventada pelos cientistas é que tais medicações tenham efeitos neuroprotetores. Existem receptores de GLP-1 em muitas células do cérebro, explicando a ação anti-inflamatória dos agonistas de GLP1: EVOKE e EVOKE+ são duas pesquisas de fase 3 que estão avaliando a eficácia e segurança da semaglutida em pessoas nos estágios iniciais da doença de Alzheimer. Enfim, esperanças que essas medicações tenham benefícios além do combate a obesidade e diabetes!

Lauro Ferreira Pinto

Doutor em Doencas Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaco quer refletir sobre saude e qualidade de vida na pandemia.

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