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Medicina

Guerra das máscaras é mais antiga do que imaginamos

Suas origens remontam à peste negra, que dizimou metade da população da Europa na Idade Média. Muitas pessoas, inclusive médicos, as usaram, mas muitos as detestavam

Publicado em 29 de Dezembro de 2022 às 00:10

Públicado em 

29 dez 2022 às 00:10
Lauro Ferreira Pinto

Colunista

Lauro Ferreira Pinto

Um vídeo com este nome, em inglês, foi produzido pela prestigiada revista New England Journal of Medicine, no mês passado, contando a trajetória das máscaras na história da medicina. Curioso saber que sempre causaram polêmicas (“guerra”).
Suas origens remontam à peste negra, que dizimou metade da população da Europa na Idade Média. Muitas pessoas, inclusive médicos, as usaram, mas muitos as detestavam. Reza a lenda que muitos médicos fugiam para o campo, na época da peste, com medo das cidades, inspirando gravuras da época que exibiam médicos com máscaras grotescas, com um bico pontudo, como aves de mau agouro, que traduziam uma forma de crítica à postura de pouco compromisso.
O uso das máscaras entre os cirurgiões se tornou mais corriqueira a partir do século XIX, com a popularização da teoria dos germes como causadores de doença. A popularização maior das máscaras é atribuída à grande peste da Manchúria, em 1910, que ceifou a vida de 65 mil chineses.
Na época, um médico chinês, Wu Lien-Teh, recebeu a incumbência de combatê-la. Ele foi o primeiro chinês educado na medicina ocidental, na Universidade de Cambridge, e era apaixonado por bacteriologia. Através da engenhosa confecção de máscaras em camadas (precursoras das atuais N95), conseguiu controlar a epidemia.
Máscaras continuarão a fazer parte da rotina das pessoas em 2020 no Espírito Santo
Máscaras continuarão a fazer parte da rotina das pessoas em 2020 no Espírito Santo Crédito: Agência Brasil
Um médico francês da época, Dr. Gerard Mesny, arrogante e agressivo com o colega, zombou das máscaras, e criou um grupo disposto a tratar os pacientes sem usar proteção facial. Ele adoeceu de peste e morreu em semanas, fato divulgado na imprensa mundial na época. Dr. Wu restringiu viagens e proibiu aglomerações na Manchúria. Ele faleceu somente aos 80 anos, em 1960.
Poucos anos depois, em 1918, o mundo viveria a terrível experiência da gripe espanhola, que proporcionalmente matou mais que a Covid-19. Em setembro de 1918, a gripe chegou às portas da Filadélfia, que organizava suas festas tradicionais. Contrariando a orientação das autoridades sanitárias, a cidade decidiu manter toda a programação com grandes aglomerações.
Em semanas, os hospitais da cidade superlotaram e a “espanhola” levou a vida de até 700 pessoas por dia, a maioria jovens. Diversas cidades americanas, entre elas Chicago e San Francisco, assustadas, restringiram aglomerações, suspenderam eventos e cultos religiosos e obrigaram o uso de máscaras. Audiências judiciais passaram a ser realizadas ao ar livre.
Em protesto, foi criada a Liga Antimáscaras, e multidões foram às ruas protestar pelo direito de não serem “amordaçadas”. Muitas cidades decretaram prisão dos antimáscaras, mas as comunidades ficaram tão divididas, que os mandatos obrigando seu uso foram efêmeros na maioria.
A experiência exitosa das comunidades orientais em San Francisco chegou a seus conterrâneos no Japão e na China. O Oriente passou a usar máscaras de modo disciplinado, sem viver a balbúrdia de protestos do Ocidente. Qualquer semelhança com a polêmica de nossos dias a respeito do uso de máscaras na pandemia atual não é mera coincidência.

Lauro Ferreira Pinto

Doutor em Doencas Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaco quer refletir sobre saude e qualidade de vida na pandemia.

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