Um dos momentos mais importantes da trajetória de A Gazeta ao longo dos seus 95 anos foi o período em que Cariê Lindenberg, tendo assumido a direção da empresa, decidiu desatrelá-la da área de influência do PSD, Partido Social Democrático, o partido político ao qual era filiado o seu pai e acionista majoritário Carlos Lindenberg. Isso aconteceu a partir de 1967 quando Cariê se dedicou a “um paciente, longo e exaustivo esforço” para desvincular A Gazeta “de um grupo político, o PSD”, como contou no livro “Eu e a Sorte” (2002).
O vínculo com o PSD era considerado algo natural na época, já que praticamente todos os jornais brasileiros se identificavam com algum grupo político. No Rio, por exemplo, a “Tribuna da Imprensa” era ligada à UDN de Carlos Lacerda, “O Dia” ao partido do seu proprietário Chagas Freitas, “O Jornal”, do Diários Associados, seguia a linha de Assis Chateubriand, a “Última Hora” ao PTB de Brizola e a “Luta Democrática” ao “homem da capa preta” Tenório Cavalcanti.
Em Vitória, “O Diário” pertencia a Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho, que foi governador do Espírito Santo em dois mandatos, e “A Tribuna” ao grupo do PSP do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros.
Como escreveu em 1983 o jornalista José Costa (1932-1997), “a história da imprensa brasileira registra um capítulo em que os jornais alimentavam uma extrema intimidade com agremiações e tendências partidárias, sendo a política – tomada aqui em sua dimensão quase eleitoral – seu elemento motivador predominante”. Não era diferente com A Gazeta, que foi adquirida por Carlos Lindenberg para apoiar as lutas políticas do seu partido.
Carlos Lindenberg se tornou acionista majoritário de A Gazeta em 1948 e, a partir daí, alinha editorial era explicitamente favorável ao PSD e, naturalmente, de oposição a Chiquinho. E assim foi até que Cariê, filho de Carlos, vislumbrando a oportunidade que se abria com a dissolução, pelo governo militar, dos partidos políticos em 1967, decidiu agir para romper os laços que uniam A Gazeta ao PSD.
Na época, Carlos Lindenberg, com 68 anos, exercia o seu último mandato como senador da República já que havia decidido que, quando findasse o mandato em 1974, encerraria a sua militância político-partidária. Segundo Cariê, o movimento de desvincular A Gazeta do PSD contou com “a solidariedade e o entusiasmo da redação” do jornal e o “temeroso, discreto e inseguro apoio” do seu pai e do seu tio Eugênio Queiroz que era o presidente da empresa.
Cariê iniciou, então, um processo “lento e gradual” até que, como disse na entrevista que concedeu ao meu trabalho de conclusão de curso de pós-graduação dedicado a esse momento da vida de A Gazeta, resolveu dar “uma fisgada um pouco maior para ver o que” resultava, ao convidar para escrever em A Gazeta o jornalista Esdras Leonor. Esdras era o colunista político de “O Diário”, jornal de Chiquinho, o maior opositor de Lindenberg. Levar Esdras para A Gazeta “foi um escândalo” para os amigos de seu pai, como relatou Cariê: “Muitos partidários do meu pai ficaram aborrecidos, reclamaram com seu Eugênio, reclamaram com papai; fiz para chocar mesmo, para dar um sinal de que estava mudando, e, ao mesmo tempo, para dar um recado: vamos nos acalmar, não vai acontecer nada; o Esdras foi um colunista eficiente”.
Ajudou bastante o processo de desatrelamento de A Gazeta do PSD o fato de os correligionários de Carlos Lindenberg, com a extinção do partido, terem se dispersados pelas duas novas legendas, a Arena, Aliança Renovadora Nacional, que apoiava o Movimento Militar, e o MDB, a “oposição consentida”. “Era o momento certo para o jornal também dispersar; e, por isso, decidimos” não apoiar nem o MDB, nem a Arena, dando "um adeus a essa história", relatou Cariê. Para ele, em 1972 A Gazeta “já estava desatrelada da política partidária”.
O movimento de desengajar o jornal dos interesses de um partido político abriu as portas para a estruturação de uma rede de comunicação em bases extremamente profissionais – a ponto de a Rede Gazeta se tornar um grupo empresarial com 18 veículos e negócios – e na consolidação de uma linha editorial independente, imparcial, equilibrada e plural que se mantém ainda hoje.