Míriam Leitão descreveu em “O Globo”, no último dia 7 – o dia da Liberdade de Imprensa no Brasil –, os tempos da censura imposta pelo governo militar em 1973. “Do nada eles apareciam com um papel na mão. Eu assinava e colocava no quadro, num pregador de papel que tinha uma mãozinha que segurava os avisos: ‘É terminantemente proibido publicar qualquer notícia sobre o arcebispo de Olinda e Recife, Helder Câmara'. (...) Aqueles policiais federais que entravam no corredor que dava na sala de redação da Rádio Espírito Santo tinham um jeito diferente de pisar no chão quando carregavam suas terminantes proibições. (...) Por isso eu recebia, assinava, pendurava o novo proibido no quadro de avisos, e voltava para a minha máquina de escrever para redigir a notícia possível”.
Eu trabalhei na redação de A Gazeta de 1968 a 1972, período em que a censura foi tão – ou mais – rigorosa do que a do ano descrito por Míriam Leitão. Foi em 1968 que o governo militar decretou o AI-5, o Ato Institucional nº 5, que suspendeu as garantias do cidadão e deu poderes ao presidente da República de fechar o Congresso, as Assembleias e as Câmaras Municipais. O Congresso foi fechado e centenas de parlamentares tiveram seus mandatos cassados e perderam os seus direitos políticos, entre eles os deputados estaduais capixabas José Ignácio Ferreira e Dailson Laranja.
Foi nesse ambiente político que tivemos que conviver, na redação de A Gazeta, com a presença de militares que recebiam, antes da publicação, uma das cópias das notícias que escrevíamos. Usávamos carbonos para fazer duas cópias do original que ia para as oficinas; uma cópia ficava com o redator chefe e a outra era entregue ao militar de plantão. Em A Gazeta também havia o quadro de avisos onde eram espetadas as proibições da censura recebidas pelo redator chefe Jackson Lima. Lembro especialmente de uma que dizia: “É terminantemente proibido publicar qualquer notícia sobre a guerrilha do Caparaó”. Foi assim que soubemos que havia um movimento guerrilheiro nas proximidades do Pico da Bandeira.
A censura em A Gazeta foi rigorosa, mesmo sendo o diretor de redação um general, Darcy Pacheco de Queiroz, irmão de Eugênio e de Dona Maria, ele um dos proprietários do jornal e ela a esposa de outro proprietário, o senador Carlos Lindenberg. Ou seja, “a notícia possível” de que falou Míriam Leitão era também adotada em A Gazeta e em todos os meios de comunicação do país. A censura só terminou com o fim dos governos militares que ocorreu graças à pressão dos setores organizados da sociedade brasileira. Um dos atos dessa pressão foi o manifesto pelo fim da censura e garantia de liberdade de imprensa assinado por 3 mil jornalistas em 7 de junho de 1977. Esse manifesto explica porque o 7 de junho é o Dia da Liberdade de Imprensa no Brasil.
Em 2022 esse dia merece ser comemorado como uma bandeira de luta para que todos se lembrem que a liberdade de imprensa só existe em uma democracia e as democracias só existem onde há liberdade de imprensa. É por isso que uma das primeiras medidas dos regimes ditatoriais e autoritários é restringir a liberdade de informar dos veículos de comunicação. Controlar a imprensa, acabar com a imprensa livre, é o sonho dos ditadores. Basta lembrar de Chávez e Maduro na Venezuela, e dos irmãos Castro em Cuba.
É preocupante que estejamos vivendo no Brasil uma polarização política em que os dois principais concorrentes à presidência da República sonham em controlar a imprensa. Quando foi presidente, Lula tentou esse controle ao defender a criação de um Conselho Federal de Jornalismo e a regulamentação dos meios de comunicação. Bolsonaro, por sua vez, não se cansa de agredir sistematicamente os veículos de comunicação e seus jornalistas. Das 430 agressões contra jornalistas registradas em 2021 pela Fenaj, a Federação dos Jornalistas, 34% têm o presidente da República como responsável.
É sinal que a liberdade de imprensa e a democracia brasileira correm sério risco e precisam ser defendidas, nessa segunda década do século XXI, como conquistas civilizatórias de que a sociedade nunca deve abrir mão.