Os especialistas em marketing eleitoral recomendam que os programas de governo e, em consequência, os discursos dos candidatos nas campanhas eleitorais devem abordar preferencialmente as maiores preocupações dos eleitores. Por isso, promovem pesquisas que buscam identificar que preocupações são essas.
Uma dessas pesquisas, realizada pela Consultoria Atlas e divulgada no dia 28, revela que, pela ordem, os maiores problemas apontados pelos brasileiros são a corrupção (21,4%), pobreza e desigualdade social (19,3%), inflação (16,7%), impostos altos e Estado ineficiente (9,8%), desemprego (6,8%), ritmo do crescimento econômico (6,5%), acesso à educação (5,5%), acesso à saúde (5%), criminalidade (3,9%) e meio ambiente (1,5%). Está aí um belo cardápio do que precisa ser abordado nas plataformas dos candidatos.
Tão importante quanto conhecer os resultados da pesquisa é analisá-los de forma adequada para que não se cheguem a conclusões equivocadas. Houve quem, por exemplo, tenha somado os percentuais de cinco tipos de respostas (pobreza e desigualdade social, inflação, impostos altos e Estado ineficiente, desemprego e ritmo do crescimento econômico), totalizando 59,1%, para concluir que as questões econômicas são as maiores preocupações de seis em cada dez brasileiros.
Ninguém tem dúvidas de que a situação da economia atormenta os brasileiros já que o desemprego e a inflação estão nas alturas aumentando a pobreza e a desigualdade social. Mas o fato de a corrupção ter sido citada pela maioria dos pesquisados demonstra que as pessoas associam os péssimos resultados de nossas políticas públicas – sejam elas de natureza econômica ou social – à corrupção que grassa nas práticas de nossos governantes. Ou seja, que não se deve deixar de considerar todos os problemas apontados pelos pesquisados já que eles estão intimamente correlacionados entre si.
Afinal de contas, alguém duvida que a corrupção seja uma das causas principais da pobreza e da desigualdade social? Ou a principal responsável pela elevada carga tributária e pela ineficiência do Estado brasileiro? Que ela dificulta o progresso e condena o país a um ridículo crescimento econômico? Que, se não fosse a corrupção, haveria mais recursos para facilitar o acesso dos mais pobres à educação e à assistência à saúde? E também para proporcionar maior segurança à população e proteção adequada do meio ambiente?
Fica posta, então, aos candidatos que irão disputar as próximas eleições, a sugestão de considerar os resultados das pesquisas como um conjunto único de indicativos úteis de identificação das mazelas sofridas pela população que estão intimamente ligadas entre si. E que esse conjunto deve ser considerado em sua totalidade sem o equívoco de achar, por exemplo, que a assistência à saúde já não é prioritária porque a vacinação reduziu as internações de contaminados pela Covid-19 (basta verificar a enorme fila de doentes que aguardam por cirurgias ou por uma simples consulta no SUS para perceber o quanto o sistema de saúde penaliza a população).
Ou imaginar que a população desconhece que a educação é a principal responsável pela construção do futuro de cada um dos nossos filhos e netos. Futuro, aliás, que depende também da preservação dos nossos recursos naturais que nunca estiveram tão ameaçados como na atualidade.