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Guerra na Ucrânia

Os tropeços da política externa de Lula

Desde a campanha eleitoral Lula tem repetido fanfarronices sobre a guerra da Ucrânia. Chegou a dizer, em um evento na Uerj, em março do ano passado, que a guerra poderia ser resolvida “numa mesa tomando cerveja até acabar as garrafas”

Públicado em 

28 abr 2023 às 00:05
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

Presidente Lula chegou a Lisboa nesta sexta-feira, 21
Presidente Lula chegou a Lisboa nesta sexta-feira, 21 Crédito: Ricardo Stuckert/Divulgação
Quando Bolsonaro visitou Vladimir Putin em fevereiro de 2022 – na época a Rússia concentrava tropas na fronteira da Ucrânia, sinalizando estar disposta a realizar uma ação militar que, de fato, ocorreu poucos dias depois com a invasão – parecia que o Brasil tinha cometido o maior dos seus erros de política externa das últimas décadas.
Mesmo o argumento de que o Brasil precisava assegurar o abastecimento de fertilizantes russos, fundamental para a agricultura, não justificava a ida do presidente da República a um país que se preparava claramente para fazer uma invasão armada a uma nação soberana, desrespeitando todos os princípios mais sagrados das relações internacionais.
As declarações de Lula sobre a guerra, feitas durante a sua recente visita à China e aos Emirados Árabes, e repetidas nos dias seguintes após o seu retorno ao Brasil, demonstraram que o erro de Bolsonaro foi um minúsculo grão de areia se comparado ao imenso areal de equívocos do governo Lula em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia.
Não foi sem razão que os Estados Unidos e a União Europeia reagiram com firmeza contra aquilo que foi chamado pelo porta-voz do Conselho de Segurança da Casa Branca de repetição da “propaganda russa e chinesa sem olhar para os fatos”.
Sem medir suas palavras, Lula disse que “a decisão da guerra foi dada pelos dois países”, cometendo o equívoco grosseiro de igualar as ações da nação invadida às da nação invasora. A afirmativa não faz o menor sentido quando se sabe que a guerra é toda travada no território da Ucrânia e que milhões de ucranianos foram obrigados a sair do país naquela que é reconhecidamente a maior leva de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial.
A destruição de cidades inteiras e de portos importantes para o abastecimento de grãos do mundo retratam a barbárie da invasão russa a ponto de Vladimir Putin ter tido a sua prisão emitida pelo Tribunal Penal Internacional por cometer “crimes de guerra”.
Outro erro de Lula foi afirmar que os Estados Unidos e a União Europeia deveriam “parar de incentivar a guerra e começar a falar em paz”. Ora, o que os Estados Unidos e a União Europeia fazem é fornecer armas para que a Ucrânia se defenda da agressão e proteja as vidas dos seus cidadãos que estão permanentemente vulneráveis aos bombardeios russos. Basta lembrar que a mais recente ameaça russa é utilizar armas nucleares nos ataques.
Para coroar a série de tropeços com relação à guerra, Lula, no dia 6 de abril, no Palácio do Planalto, disse que o presidente da Ucrânia “não pode querer tudo” insinuando que ele deveria ceder territórios à Rússia para obter a paz. Zelensky, o presidente da Ucrânia, respondeu no dia seguinte: “Respeito e ordem retornarão apenas quando a bandeira ucraniana retornar à Crimeia”, referindo-se à região que a Rússia anexou à força ao seu território em 2014.
Lula ultrapassou os limites do bom senso quando, logo após retornar ao Brasil, recebeu o ministro das Relações Exteriores russo Sergei Lavrov. O ministro, ao final do encontro, sem ser desmentido, declarou que Brasil e Rússia têm posições similares sobre a guerra. Quando se sabe que o assessor especial de Lula, Celso Amorim, esteve em Moscou visitando Putin no fim de março, é possível perceber que, definitivamente, Lula está do lado errado nessa história.
No último fim de semana, Lula tentou dar um cavalo-de-pau no que tinha dito. Após o presidente de Portugal ter afirmado, na sua presença, com toda clareza, que a União Europeia coloca como condição prévia para qualquer negociação a imediata devolução dos territórios ucranianos invadidos, Lula passou a dizer que “nunca igualou as responsabilidades” de Rússia e Ucrânia na guerra. Mais tarde, condenou explicitamente a “violação da integridade territorial da Ucrânia”. E anunciou que Amorim irá também à Ucrânia. Melhor do que nada, mas deveria ter reconhecido que errou nos pronunciamentos anteriores.
Desde a campanha eleitoral Lula tem repetido fanfarronices sobre a guerra da Ucrânia. Chegou a dizer, em um evento na Uerj, em março do ano passado, que a guerra poderia ser resolvida “numa mesa tomando cerveja até acabar as garrafas”. Talvez por se achar tão empoderado, se permitiu até a tomar partido em uma guerra, o que poderá trazer para ele e para o Brasil mais problemas do que poderia ocorrer se tentasse tratar o assunto em uma mesa de bar.

José Carlos Corrêa

E jornalista. Atualidades de economia e politica, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham analises neste espaco.

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