Quando se vê o jogo de ping-pong que a Justiça trava com o hacker de Araraquara, como ficou conhecido Walter Delgatti Neto, é possível se constatar que o Brasil, e particularmente a Justiça brasileira, definitivamente anda para trás. Delgatti foi preso em 2015 por falsidade ideológica por mentir ao dizer que era um delegado e que estava com armas no carro, e foi investigado em 2017 por falsificar documentos.
Em 2019 foi preso pela Polícia Federal por invadir as contas do aplicativo Telegram e ficou famoso por ter parte de suas gravações, com diálogos supostamente atribuídos aos procuradores da Operação Lava Jato e ao juiz Sergio Moro, serem publicados no site Intercept.
Virou ídolo dos petistas quando os tais diálogos, mesmo não tendo a sua autenticidade reconhecida e tendo sido claramente obtidos por meios ilegais, foram utilizados pelo Supremo Tribunal Federal para anular os processos contra Lula, o que foi decisivo para colocar o acusado em liberdade e permitir que ele disputasse – e vencesse – as eleições para a presidência da República.
Foi ainda a Justiça quem colocou Delgatti em liberdade em 2020, obrigando-o a utilizar tornozeleira eletrônica e proibindo o seu acesso à internet. Pois bem, o hacker continuou zombando da Justiça e em janeiro de 2023 voltou a ser investigado pela Polícia Federal por invadir os sistemas do Conselho Nacional de Justiça onde inseriu por molecagem um falso mandado de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes assinado pelo próprio ministro.
Delgatti foi, em junho passado, novamente preso por estar notoriamente descumprindo as decisões judiciais, mas – ó, meu Brasil brasileiro! – foi novamente solto em julho. Em mais um lance desse interminável ping-pong, voltou a ser preso no dia 2 de agosto. Mesmo tendo sido Delgatti condenado, na segunda-feira, a 20 anos de prisão, ninguém duvida que ele poderá ser novamente solto a qualquer momento por alguma dessas brechas inexplicáveis que existem no sistema judiciário brasileiro.
As consequências das malandragens do hacker de Araraquara têm sido desastrosas para o Brasil. Os supostos diálogos dos procuradores são utilizados até hoje para libertar políticos e empresários que haviam sido condenados pela Lava Jato, mesmo que alguns ministros tenham jurado, à época, que a anulação das provas contra Lula não serviria como referência para outros casos.
Ingênua ilusão: as provas ilícitas não só serviram para desmontar toda a Operação Lava Jato como também para implodir o sistema de combate à corrupção construído com tanto sacrifício a partir dos julgamentos do mensalão. O desmonte é tão grande que abriu caminho para a vingança dos condenados, a ponto de a Justiça ter cassado o mandato de deputado federal de Deltan Dallagnol, anulando os 345 mil votos que ele recebeu no Paraná. E ameaça fazer o mesmo com Sergio Moro que recebeu quase 2 milhões de votos.
Enquanto isso, a defesa do hacker de Araraquara alega não ter tido ainda acesso ao processo que resultou em sua prisão, deixando espaços para a suspeita de que ele estaria interessado em fazer uma delação premiada. Isso seria mais um lance irônico desse ping-pong que agora conta também com a participação da deputada Carla Zambelli, uma reconhecida adversária de Lula e líder da direita bolsonarista, que aparece na história como tendo, ao lado do ex-presidente Bolsonaro, supostamente contratado Delgatti para tentar invadir as urnas eletrônicas.
Resumo da ópera: a Justiça brasileira, ao dar crédito e se valer de provas ilícitas obtidas por um estelionatário, se desmoraliza e contribui para dar munição àqueles que, por motivos claramente não republicanos, vivem pedindo o impeachment de ministros do Supremo.
E a classe política, tanto à esquerda quanto à direita, também se desmoraliza quando incensa e remunera um marginal que deveria estar mofando na prisão, mas que continua, graças a um sistema que tende à impunidade, se valendo da leniência dos julgadores para continuar zombando, na nossa cara, do nosso país. Até quando?