Conheci Cacau Monjardim em O Diário. Ali, no alto da Rua Sete de Setembro, ele era o diretor do jornal ao lado de Plínio Marchini, de Fernando Jakes Teubner, o Jacaré, que respondia pela área comercial, e Everaldo Pelissari que comandava o jornalismo. Dalton Martins da Costa era o secretário, Paulo Maia o sub e Esdras Leonor o colunista social. Eu, que iniciei na redação escrevendo sobre o movimento estudantil, logo fui convidado a atuar como repórter e, depois, como secretário de redação. Isso em 1965, quando o jornal era de propriedade de Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho, que vivia os seus últimos meses como governador do Estado já que estava na mira do regime militar.
Tempos depois vim a saber que Cacau era remanescente de um período anterior da vida de O Diário, quando o jornal foi criado, em 1955, por uma ala do PSD liderada por Christiano Dias Lopes Filho e Alvino Gatti, e fazia oposição a Chiquinho. Na época era assim: os jornais, todos eles, eram atrelados a partidos políticos. Cacau, nesse primeiro período, participava do jornal com o “Coquetel da Cidade” que ele definia como “uma coluna no estilo do velho e saudoso Antônio Maria”, o cronista que fez história nos jornais cariocas na década de 1950. O “Coquetel” se transformou, ao longo do tempo, em coluna social porque, como lembrava Cacau, “dava mais ibope”. A seguir, Cacau passou também a cobrir a economia capixaba em uma nova coluna, a “Poltrona B”.
Quando, em 1956, o deputado federal fluminense Mário Tamborindegui, ligado a Chiquinho, comprou o jornal, todos os jornalistas que integravam a redação deixaram a empresa, inclusive Cacau que pertencia à chamada “ala moça do PSD”. Mas, após algumas semanas, Cacau foi convidado a voltar a publicar as suas colunas. E quando Chiquinho adquiriu o jornal – colocado em nome do seu filho Renato e de um jovem advogado da ala jovem da UDN Setembrino Pelissari –, Cacau foi convidado a ser o diretor responsável. E não deve ter sido fácil a sua missão porque não demorou muito a chegada dos anos de chumbo.
A trajetória de Cacau em O Diário, passando por dirigentes ligados a correntes políticas diversas e antagônicas, demonstra bem a facilidade com que ele transitava na sociedade capixaba, sempre bem visto por todos e cultivando amigos por onde passava. Basta lembrar que ele esteve também em A Gazeta (com “Coquetel da Cidade”), A Tribuna (“Turismo”) e Rádio Capixaba, onde foi diretor. Sua atuação no Governo do Estado perpassou o mandato de vários governadores já que foi Secretário de Comunicação, subsecretário de Turismo, subchefe da Casa Civil e dez anos presidente da Emcatur, a Empresa Capixaba de Turismo, cuja criação foi por ele concebida. Cacau, como relembra Fernando Manhães, foi o mentor do decreto que instituiu o Prêmio Colibri, a mais importante premiação da publicidade regional do Brasil.
Foi graças à persistência de Cacau que o Governo do Estado decidiu pavimentar a Rodovia do Sol, entre Vila Velha e Guarapari, abrindo perspectivas para a exploração turística de uma ampla e bela faixa do nosso litoral. Vi o entusiasmo dos estudantes que assistiram a uma palestra de Cacau, na Escola Politécnica da Ufes, na qual ele descrevia o seu sonho de ver, ao longo da Praia do Sol, a construção e expansão do que ele denominava como a “Cidade do Sol”.
Cacau era assim, um visionário apaixonado pelo Espírito Santo. Tinha que ser ele o criador do famoso slogan “Moqueca só capixaba, o resto é peixada”. O Dia da Moqueca tinha que ser – como de fato é – a data do seu aniversário, 30 de setembro. São de Cacau as obras que enaltecem a culinária capixaba (“Segredos da cozinha capixaba”), as belezas do Estado (“Turismo e desenvolvimento”, “Turismo no Espírito Santo”, “Horóscopo turístico”) e valorizam a nossa identidade (“Capixaba, sim”, “Capixaba, hoje mais do que ontem”). É sua a criação do kit que distribuía aos amigos e visitantes com urucum acompanhado da receita e da história da moqueca capixaba, e um jogo de porrinha com pedras semipreciosas da nossa terra.
No último dia 18, perdemos Cacau, José Carlos Monjardim Cavalcanti, 93 anos, o mais capixaba dos capixabas. Como bem definiu o jornalista Leonel Ximenes, “Capixaba é Cacau, o resto é espírito-santense; morre o nosso embaixador, mas sua obra ficará eterna”.