Disse Washington Olivetto, em entrevista à jornalista Fernanda Queiroz, na Rádio CBN Vitória, em 13/9/2018, que a melhor campanha publicitária, de sua autoria, foi a da Bombril, de 1978. Afinal, segundo ele, foram “35 anos, quase 400 comerciais com o mesmo ator (Carlos Moreno), frequentando todas as áreas que a comunicação pode ter – humorístico, emocional, racional, musical com ele cantando ‘Pense em mim’”.
Alguns anos antes, assisti a uma palestra de Olivetto em que ele explicava as razões de ter escolhido Carlos Moreno para o papel de “Garoto Bombril”. Disse ele ter escolhido, de propósito, um homem desajeitado, para falar algumas coisas quase sem sentido sobre um produto de uma área – limpeza doméstica – onde só reinavam as mulheres. O sucesso foi tão grande que o caso chegou ao Guinness Book pelo grande tempo em que permaneceu no ar.
Um dos produtos da Bombril que ganharam destaque nesse comercial foi o amaciante Mon Bijou, no qual Carlos Moreno fazia elogios ao concorrente Comfort, mas ressalvando: “Você também é bom, não precisa ficar chateado, mas o Mon Bijou tem dois perfumes enquanto você tem um só”. A empresa concorrente reclamou e, após uma disputa judicial, o comercial foi relançado com um saco cobrindo o produto concorrente.
Nessa mesma palestra, Olivetto relembrou o premiadíssimo comercial “O primeiro Valisère a gente nunca esquece” (1987), no qual uma garota de 11 anos experimenta o seu primeiro sutiã. Após vestir o sutiã, a garota sai à rua e, ao ser olhada com admiração por um rapaz, protege, com pudor, o seu peito com os livros que segurava nos braços.
Como o comercial completava 25 anos, Olivetto exibiu uma versão contemporânea da peça em que a garota tinha uma tatuagem e um penteado radical e, ao ser admirada na rua, ao invés de se cobrir com os livros, ousada, desabotoa um dos botões da blusa.
Admirador de Olivetto, eu adoro todos os seus comerciais emblemáticos, como “Curvas” (do cãozinho da Cofap), o “Hitler” feito para a Folha de São Paulo (“é possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade”), o Vulcabras 752 (que levou às peças personalidades improváveis como Paulo Maluf, Joãosinho Trinta, Leonel Brizola e Hebe Camargo), “O Pingo” (da torneira Deca), “Portas” (da Garoto), “Casal Unibanco” (“a Lúcia Helena do Unibanco mima você”), e “Como uma onda” (da Rider/Grendene), entre tantos outros.
Mas a minha preferida é a “Sonhos” em que meninos admiram mulheres quase adultas e que termina com a frase: “Bombons Garoto – esses bombons ainda vão ajudar você a realizar os seus sonhos, garoto!”. Hoje, por causa da onda do “politicamente correto”, a propaganda seria polêmica e muito criticada. Como, aliás, consta de comentários onde está exibida nas redes sociais, que vão de “obra-prima” a “machista”.
Demorei a escrever sobre Washington Olivetto porque preferi aguardar algum tempo para ler antes o texto que seria escrito – como de fato foi – pelo publicitário Fernando Manhães. Agi certo. Foi lá que li que a morte de Olivetto, ocorrida em 13 de outubro, fez o Brasil ficar “menos criativo” e a publicidade brasileira ficar “menos popular”. “Quantos publicitários foram influenciados por Olivetto? Milhares. Arrisco a dizer que foram gerações”, escreveu Manhães.
Olivetto foi o mestre dos mestres da publicidade. Sobre ele, disse Nizan Guanaes: “Morreu o maior de nós; o João Gilberto da propaganda; ele mudou tudo”. Em seu último artigo, publicado em “O Globo”, com o título “Publicidade made in Brazil”, em 17/6/24, Olivetto fez uma crítica que merece ser observada pelas agências publicitárias brasileiras que “não fazem mais trabalhos, fazem jobs; não fazem mais reuniões, fazem meetings”. Afinal, como disse Guanaes, Olivetto “mudou a maneira da propaganda falar; de americanizada e pomposa, ele fez dela brasileira e global”.
Por fim, segue mais um ensinamento do mestre dos mestres aos publicitários: a grande ideia é “aquela tirada da vida, transportada para a publicidade e devolvida para a vida”.