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Marketing

Marcas para ninar: aquelas que zelam pelos nossos projetos de felicidade

Nem todas as marcas nos aproximam desses momentos de entrega. Algumas, entretanto, são quase um acalanto em nossas vidas. São as que nos permitem adormecer em paz e sonhar, por tê-las ao nosso lado

Públicado em 

06 dez 2023 às 02:00
Jaime Troiano

Colunista

Jaime Troiano

Eu me lembro de ter escrito, já faz algum tempo, um artigo cujo título era "Deitado sob a GE".
Foi fruto de uma experiência pessoal verdadeira e não apenas inspirada nela. Havia feito uma ressonância magnética do joelho. É lógico que é um procedimento assustador, embora fosse o joelho: entrar naquele tubo com sons que lembram reminiscências infantis de túneis escuros e assustadores, Piratas do Caribe, aranhas cabeludas…
Fiquei lá paradinho, esperando para ver o que ia acontecer. Sentindo um frio na espinha, é claro. Porém, eis que, ao olhar para cima, para a parte frontal e superior do tubo, li, escrita em letras bem grandes, a marca do equipamento: GE.
Quase que instantaneamente, o frio na espinha passou e uma enorme sensação de tranquilidade tomou conta de mim. Era como se meu pai tivesse segurado no braço do Jaime-menino para atravessar a movimentada Av. Lins de Vasconcelos, no Cambuci (SP), perto de casa.
Aquelas duas letrinhas, GE, levantaram o alçapão da memória: eu vi minha irmã feliz com o secador de cabelos, minha mãe cantarolando e passando o ferro numa tábua de roupas, vi minha primeira geladeira na cozinha. Tudo isso com aquela mesma marca. E, há pouco tempo, me lembro também, subindo a escada de um avião, de ter visto GE estampada na turbina.
Acreditem: essa carga de imagens que brotavam sem que eu pedisse foi o suficiente. Em cinco minutos de exame, eu cochilei, dormi, mesmo sem terem me dado qualquer relaxante. Quando a enfermeira me acordou, a GE continuava lá. Não foi um sono de cansaço nem de fuga, mas de um sentimento meio regressivo, como no filme Ratatouille, e como se o Jaime-menino tivesse sido ninado outra vez.
Não resisto, tenho que fazer esta ilação. Aquilo que nos faz adormecer começa lá atrás em nossas vidas, com acalantos, a presença protetora de nossa mãe, sua mão em nossa cabeça, uma penumbra que anestesia, até o momento mágico da entrega total.
E, como nada acontece por acaso, há poucos dias, por outras razões, que nada têm a ver com este artigo, comprei um livro que amarrou e elucidou essa minha quase fábula. Uma verdadeira sincronia. O livro chama-se “A erótica do sono - Ensaios psicanalíticos sobre a insônia e o gozo de dormir” (Mario Eduardo Costa Pereira – Editora Aller, 2021).
“ (Ao dormir) Deve ser possível colocar em suspensão as preocupações relativas à vida cotidiana, à gestão da dimensão mundana do existir e permitir-se simplesmente... entregar-se aos braços de Morfeu. Sim, dormir – algo que se dá sob o inquietante silêncio das estrelas – pressupõe a capacidade de entrega e de confiança.” (pag.53)
Nem todas as marcas nos aproximam desses momentos de entrega. Algumas, entretanto, são quase um acalanto em nossas vidas. São as que nos permitem adormecer em paz e sonhar, por tê-las ao nosso lado.
Talvez um bom critério para entender o afeto que nos conecta com essas marcas seja o cafuné. Aquele autêntico pousar da mão que nos protege e acaricia. “O cafuné, prática derivada do grooming – o despiolhar, existente em todas as culturas, inclusive as europeias -, consiste em uma carícia suave com as pontas dos dedos no couro cabeludo da criança como expressão de ternura para acalmá-la ou adormecê-la”. (op cit, pag 151)
Confesso que nunca havia pensado num paralelo tão claro entre o que nos embala, nos protege, nos faz dormir e as marcas que zelam pelos nossos projetos de felicidade.
Alguém poderá dizer: Jaime, você é mesmo um sonhador, afinal isso só vale para essas marcas muito poderosas, que têm muito dinheiro para investir, mas não se aplica a negócios médios e pequenos. Argumento que é uma grande bobagem, porque vale para todas as marcas e empresas que colocam o consumidor no centro de suas iniciativas.
Dia Mundial do Sono: mulher dormindo
Crédito: Shutterstock
Em primeiro lugar, as grandes já foram muito menores. E em segundo lugar: é de pequeno que se torce o pepino. Depois, não tem mais jeito.
O que as marcas fazem para deixar o consumidor tranquilo por tê-las adquirido, para dormirem em paz e com o pepino distorcido?
  1. Não prometer o que não são capazes de fazer.
  2. Ser como a Sherazade, das 1001 Noites, que todo dia tem alguma história nova para contar.
  3. Ter uma paciência maternal para ouvir e entender seus consumidores.
  4. Ser absolutamente consistentes: o que elas disserem hoje não deve contrariar, na essência, a história que contaram ontem. 
  5. Abusar do cafuné!
Não garanto que, ao agir assim, a marca navegará num oceano azul. Mas o que eu garanto é que, sem esses cuidados, prepare-se para uma longas e cansativas noites de insônia.

Jaime Troiano

Engenheiro Químico e Sociólogo, CEO da TroianoBranding. Escreve sobre o papel estratégico das marcas para a economia e a sociedade

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