Sempre fico surpreso e desanimado, para dizer o mínimo, quando vejo situações como as que vou descrever a seguir.
Há não muito tempo, a TroianoBranding fez um estudo para entender alguns comportamentos relativos a questões ambientais. Sobre como pessoas, como cada um de nós, procede diante de temas muito atuais, que incomodam a todos.
O trabalho, com algumas centenas de entrevistas, foi realizado em São Paulo e Curitiba, por meio de algumas perguntas extremamente simples.
Vejam o que aconteceu.
Pergunta: “Você fecha a torneira enquanto escova os dentes?” Resposta: 87% dizem que fecham.
Pergunta: “Você reutiliza a água da máquina de lavar roupas para outros fins?” Resposta: 65% dizem reutilizar.
Pergunta: “Você apaga as luzes quando sai de um ambiente?” Resposta: 88% dizem que sim.
Vendo os resultados, sinto-me como se estivesse na Alemanha ou na Escandinávia.
Mas o que acontece quando a pergunta é: “Os brasileiros em geral, costumam fechar a torneira enquanto escovam os dentes?" A resposta é o inverso: a grande maioria afirma que os brasileiros não fecham a torneira ao escovar os dentes. E a mesma inversão para a reutilização de água da máquina de lavar roupas e apagar a luz quando sai do ambiente.
Qual o porquê dessa aparente vontade de demonstrar o que, de fato, não somos como sociedade?
Em primeiro lugar, porque é muito comum se esconder atrás dos outros para não revelar o que, de fato, sentimos, ou admitir o que não somos. Assim, não revelamos o que se passa dentro de nós, seja por não entendermos nossa “engenharia interna”, seja por vergonha de sermos politicamente incorretos, ou simplesmente pelo desejo de negar evidências. É muito mais fácil me proteger vendo o problema praticado pelo vizinho. Uma das manifestações muito cristalinas de narcisismo.
Estudos publicados em diversos veículos de comunicação têm caído nessa armadilha e acreditado no que as pessoas declaram publicamente. São investigações que espelham o que as pessoas dizem, mas não o que elas, de fato, sentem.
Vi um exemplo disso há pouco tempo. Fiquei muito chocado quando uma pesquisa indicou que mais da metade dos entrevistados disseram não comprar produtos de organizações que não investem em sustentabilidade e que ameaçam o nosso planeta. Uma intenção muito civilizada, mas que nem de longe traduz nosso verdadeiro comportamento como consumidores.
E mais, quase dois terços deles dizem ir em busca de marcas que têm demonstrado autênticos compromissos com a cultura ESG. Como se eles tivessem alguma consciência do que essas três letras representam.
Ao ler os resultados, pensei, que bom cheguei em Helsinque!
As pessoas se escondem atrás de álibis e respostas educadas. Quem cai nessas armadilhas capta apenas a superfície das coisas.
Lendo essas respostas, não me senti nem um pouco brasileiro. Afinal, eu fecho a torneira, eu apago as luzes.
Pesquisas que li recentemente dizem também que as pessoas pautam seu comportamento de compra criteriosamente, evitando empresas envolvidas em “greenwashing”. Pronto, agora cheguei em Oslo!
Enquanto não fugirmos dessas armadilhas metodológicas não seremos capazes de nos enxergar de verdade, com todas nossas imperfeições, convivendo apenas com os sublimes sonhos, desejos e o espelho refletido do primeiro mundo. Espero que um dia a lucidez do Cazuza nos redima: “Brasil/Mostra a tua cara”.