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Segurança pública

Vamos cancelar uns CPFs? E também uns CNPJs...

As imagens que a gente recebe pelo WhatsApp de “bandidos que se deram mal” podem satisfazer nossa sede de vingança, nossa indignação, mas essas cenas são tão absolutamente raras na vida real

Públicado em 

21 ago 2022 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Lanchonete
Assalto a lanchonete na Serra termina com dois mortos, entre eles um funcionário, após troca de tiros Crédito: Videomonitoramento
Pois é, tem sempre umas pessoas sonhando acordadas com a aplicação informal da pena de morte como solução para a criminalidade. Esse raciocínio é repleto de fragilidades e espanta que alguém não as perceba.
Começa por um problema de escala: não estamos falando de um ou dois facínoras agindo no Brasil, mas de centenas de milhares. Além disso, eles não ficam se oferecendo como alvo nos stands de tiro. Seria necessário que todos os cidadãos brasileiros, inclusive a Tia Zulmira, estivessem armados, treinados e dispostos a trocar tiros com ladrões.
As imagens que a gente recebe pelo WhatsApp ou vê no YouTube de “bandidos que se deram mal” podem satisfazer nossa sede de vingança, nossa indignação, mas essas cenas são tão absolutamente raras na vida real, que, multiplicadas por cem, ainda seriam estatisticamente irrelevantes.
Na verdade, já tivemos esquadrões da morte no Brasil e foi justamente o período em que a criminalidade disparou e no qual se perdeu o controle das polícias, recuperado com dificuldade em alguns Estados, mas não em outros. Em resumo: não, um bando de Caçadores, Atiradores e Colecionadores andando armado por aí não vai limpar o país dos bandidos.
Outro problema óbvio: pode parecer uma ótima ideia quando outra pessoa resiste a um assalto e mata o agressor, mas não tem tanta graça quando você é que se vê envolvido nessa situação, precisando provar que agiu em legitima defesa, muitas vezes enfrentando ações criminais e todas as despesas e preocupações que isso gera.
Tem gente que acha que os policiais vão se prestar a esse papel, mas eles são profissionais como outros quaisquer: simplesmente não vão colocar em risco sua liberdade e seu ganha-pão fora dos casos em que seja estritamente legal o emprego da força; pelo menos não os inteligentes. Em resumo, mesmo que fosse possível cancelar o CPF de todos os malfeitores, simplesmente ninguém fará isso por você.
Depois, temos os casos nada raros em que a vítima leva a pior, ou alguém que não seja o perpetrador do crime. Aliás, o criminoso quase sempre está em situação vantajosa, com a surpresa a seu lado etc. Não dá para ficar “editando” o filme da vida, selecionando somente as cenas em que o mocinho é vitorioso.
Se alguns indivíduos sem bom senso acham que se protegem andando armados por aí, não podemos fazer muita coisa, enquanto outra pessoa, com ainda menos juízo e muito mais poder, mantiver isso dentro da lei. Mas que vai resolver algo, não, não vai.
Para encerrar, umas perguntas: por que tanta revolta contra pequenos meliantes e tanta leniência com os grandes? Qual é o sentido de cancelar o CPF de quem rouba pouco, enquanto os que roubam muito ficam impunes ou, na melhor das hipóteses, “presos” em suas mansões? Por que o Brasil é tão complacente com aqueles que desviam bilhões dos cofres públicos? Que tal a gente começar a cancelar uns CNPJs, para variar?

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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