À medida que os leitos hospitalares se aproximam de sua lotação e as notificações de novos casos de Covid-19 continuam chegando, autoridades públicas começam a discutir a necessidade de não apenas adotar medidas preventivas mais severas, mas também de as aplicar de maneira enérgica. Alguns desavisados flertam com a ideia de impor à população um toque de recolher por meio das forças policiais, e sempre há o risco de que ele decorra de alguma determinação judicial.
É bem verdade que isso foi feito em alguns países, mas as condições foram outras. Se a maior parte da população atende voluntariamente, lidar com as exceções não é um grande desafio. Por outro lado, o bobby londrino pode se permitir o luxo de nem sequer portar arma de fogo, sendo treinado e equipado para interagir com o não delinquente.
Por fim, devemos lembrar que a população já está há meses confinada, sem ao menos previsão para o término da pandemia: providências drásticas são mais fáceis de adotar antes que a ansiedade tome conta do cidadão.
Um século atrás, a imposição de medidas sanitárias pela força bruta degenerou na Revolta da Vacina. Desviar as já sobrecarregadas instituições de segurança pública para conferir quem pode ou não circular é uma ideia para lá de arriscada e de sucesso improvável. Haverá melhores chances de manter as pessoas em casa se elas simplesmente não tiverem o que fazer fora, eliminando-se sistematicamente tudo aquilo que for identificado como um atrativo. Não que isso seja fácil ou de sucesso garantido, apenas diminuiria o atrito com a população e a quantidade de policiais empregada.
De toda forma, já deveríamos ter perdido o hábito de tomar deliberações e apenas comunicá-las aos responsáveis pelo seu cumprimento. O lema “missão dada, missão cumprida” não é dirigido ao governante: antes de emitir uma ordem é preciso saber se ela pode ser executada e a que custo. Se estiver sendo de fato cogitado o emprego de força para implementar alguma medida, é indispensável que a Polícia Militar e/ou as Guardas Municipais participem do processo decisório.
Isso tudo, entretanto, é dito apenas por amor ao debate. Há momentos para se exercitar a autoridade, dar sentenças e cumprir a lei com “tiro, bomba e pancada”, mas este não é um deles. Desocupar um lote não é a mesma coisa que esvaziar uma cidade. Em último caso, estratégias indiretas certamente serão mais efetivas, menos custosas e de menores danos colaterais que a tentativa de tirar o povo das ruas debaixo de vara