Esta semana houve uma notícia que nem de longe tem a importância e muito menos o significado que se quer dar: a fuga de presos do sistema federal, pela primeira vez na história. Isso simplesmente não pode ser imputado ao recém-empossado secretário nacional de Políticas Penais (Senappen), nosso conhecido e quase capixaba André Garcia, muito menos ao ministro da Justiça, com só uns poucos dias a mais no cargo. Na verdade, salvo se as investigações apontarem colaboração de algum funcionário corrupto, simplesmente não é o caso arrumar bodes expiatórios.
Ao que tudo indica, a estrutura física do estabelecimento prisional tem fragilidades que os criminosos descobriram antes da administração e souberam aproveitar. Ou seja, um problema que está ali desde a construção e apenas ainda não havia sido percebido nem pelas autoridades nem pelos presos. Isso não necessariamente exclui falhas humanas ou até corrupção de servidores, mas é o tipo de detalhe que não chega facilmente aos níveis mais altos de gestão.
Portanto, apesar do interesse popular e do apelo jornalístico e, claro, da necessidade de apuração rigorosa, essa falha está a demandar, muito mais, um extenso e minucioso trabalho de identificação de outras possíveis fragilidades e de revisão de protocolos, além de um pente fino da contrainteligência. Só porque não havia ocorrido evasões anteriormente não significa que o sistema carcerário federal é inexpugnável. Até da prisão de Alcatraz houve fugas.
Em resumo, o mais importante acordar para o fato de que ausência de fatos anteriores não implica que os presídios federais sejam invulneráveis, aprender com esse mau funcionamento, consertar aquilo que o incidente em si desde já revele ser uma fraqueza, mas também – e mais importante – realizar uma auditoria de fôlego que, com toda certeza, apontará inúmeros outros pontos cegos, precariedades, procedimentos de segurança inadequados ou insuficientes etc.
De certa forma, a evasão de apenas dois criminosos, por mais perigosos que sejam, pode, no final das contas, ser um preço pequeno a pagar pelo aprendizado e pelos aperfeiçoamentos que podem resultar de tudo isso.
Um sistema prisional não é algo que é criado de uma vez. A primeira versão fatalmente apresentará deficiências que podem ser lidas como oportunidades de melhoria e de aperfeiçoamento constante, aprendizado contínuo e experiências para receber ou transmitir a outros estabelecimentos de encarceramento. Em vez de politizar um evento ruim, devemos todos torcer não apenas pela recaptura dos fujões, mas, principalmente, para a prevenção eficaz de novos escapes.
Se alguém errou, talvez seja o caso de puni-lo, mas burrice, mesmo, seria permanecer no erro