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Mortes no trânsito

Se quisermos ruas mais amigáveis, vamos precisar da 'indústria da multa'

Campanhas de conscientização terão um papel importante, mas só uma pequena dor no bolso nos fará prestar atenção nelas. Punir só quando alguém perde a vida não vai contribuir em nada

Publicado em 01 de Setembro de 2024 às 02:00

Públicado em 

01 set 2024 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

Uma coluna puxa a outra. A da semana passada me deixou a sensação de que ficou coisa sem dizer. Muita coisa, então, provavelmente não vai caber nas próximas linhas.
Quando se fala em segurança pública, quase todo mundo aponta o que os outros fazem de errado, mas não olha para si mesmo e para os seus. Acontece que a Humanidade não é algo homogêneo e linear. Além de todos nós termos nossas falhas, não há unanimidade sobre o que é certo ou errado, grave ou não, até onde podem ir as escolhas e atitudes pessoais.
Pessoas de todas as idades, credos e matizes, todo mundo faz coisas que incomodam muito os outros. Bem, não há unanimidade, mas vão se formando certos consensos sobre o que cada sociedade, em determinada época, considera inaceitável e decide proibir, combater etc.
Claro que leis são necessárias, mas não são suficientes, a começar pelo fato de que nem sempre é fácil fazer com que sejam cumpridas. E leis que jogam para a torcida costumam mais atrapalhar que ajudar. Leis ocupam as autoridades com algo que pode não ser prioritário, criam despesas públicas que podem ser ineficientes e por aí vai.
Se o legislador não for racional, objetivo e criterioso, se não for um observador atento da natureza humana, teremos o problema que o Brasil vem enfrentando: a inflação legislativa, uma profusão – e confusão – de novas leis sempre criminalizando mais alguma conduta ou agravando a punição para as que já são proibidas, apenas para contentar o eleitor, sem nenhuma preocupação sincera com o bem comum.
Em primeiro lugar, nem tudo de errado deve ser combatido mediante prisão, que é um instrumento muito caro e pouco eficiente. Andou circulando pelas manchetes a história do proprietário de um apartamento que foi proibido pelo Judiciário de utilizar (pessoalmente) esse seu próprio patrimônio, depois de, segundo o julgamento, haver cometido uma série insuportável de abusos no condomínio.
Sem fazer nenhum juízo de valor sobre o caso concreto, é fácil perceber que existem alternativas que só impactam no próprio infrator, sem despesas para o Estado, e muito mais resolutivas.
Avanço do sinal vermelho tem números críticos na Grande Vitória
Avanço do sinal vermelho tem números críticos na Grande Vitória Crédito: Fernando Madeira
Um segundo ponto é que nem todo crime tem o mesmo perfil de autor ou de vítima. Para cometer assaltos, alguém precisa de uma arma, geralmente de fogo; para atropelar um pedestre, de um automóvel. Há crimes que dificilmente serão praticados por alguém com muito patrimônio, outros cujo autor quase sempre tem o “colarinho branco”.
Fora que a mesma pessoa age e reage diferente quando está traficando drogas, quando está assassinando um traficante rival ou cometendo um roubo. O criminoso pode ser o mesmo indivíduo, mas revelando aspectos diferentes de sua personalidade.
Além de não existir solução universal para todos os problemas da sociedade, para todos os comportamentos antissociais, é uma tolice achar que cadeia ou multa terão o mesmo efeito para todas as pessoas e para todos os crimes, que campanhas de comunicação terão sempre o mesmo impacto.
A abordagem deve ser específica quando se quer reduzir o número de assassinatos, de mortes no trânsito ou de crimes contra o patrimônio. A atuação dos governantes, dos legisladores e dos juízes não apenas precisa ser compatível com cada dificuldade a ser superada e a cada indivíduo que a esteja causando, como estritamente racional, voltada para obter efeitos práticos, resultados concretos, não para construir palanques e discursos, não para a busca de eleição e reeleição.
Daí a minha preocupação, na semana passada, em enfatizar que a violência no trânsito precisa ser enfrentada, sim, mas não da mesma maneira como nos propomos a reduzir os homicídios intencionais.
O atropelador pode ser qualquer um de nós, basta ter acesso a uma chave de automóvel, não precisa nem de habilitação. Pessoas com personalidade comum, com comportamento em geral muito adequado, aumentam muito a probabilidade de envolverem em acidentes quando cometem pequenas infrações. Não é necessária frieza ou agressividade muito excepcional. Não estamos tratando com exceções à regra.
Se quisermos ruas mais amigáveis, será preciso incrementar a “indústria da multa”. Campanhas de conscientização terão um papel importante, mas só uma pequena dor no bolso nos fará prestar atenção nelas. Punir só quando alguém perde a vida não vai contribuir em nada. É uma lição muito, mais muito velha, que a gente aprende na primeira aula de Direito Penal.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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