*Escrito com coautoria de Luciana Souza Borges Herkenhoff
Enquanto a pandemia não cessa, especula-se sobre o futuro. Parece unânime a previsão de uma longa e profunda recessão e, com isso, surge o temor de que haja aumento proporcional da violência patrimonial. Não seria prudente cravar uma opinião sobre isso, mas as experiências anteriores e outros estudos não dão muita força a esse medo.
Existem redes formais e informais de solidariedade, reservas pessoais e outros mecanismos atenuam e/ou adiam o início do problema. Por outro lado, a esmagadora maioria desses desempregados simplesmente aceitará ocupações menos remuneradas, informais e sem periodicidade, os populares “bicos”.
A título de exemplo, quando a Bolsa de Nova York quebrou cerca de um século atrás, foi a proibição do álcool que resultou no fortalecimento da Máfia e no aumento dos crimes. Embora haja uma correlação entre violência e economia, ela se dá muito mais pela desigualdade social que pela pobreza em si; países miseráveis pela África e Ásia historicamente têm baixíssimos índices de agressão e mesmo assim relacionados a conflitos étnicos e políticos.
Estudos que vimos conduzindo com nossos orientandos sobre a motivação para o roubo sugerem que o sustento do vício em drogas tem importância, mas nem tanto a pobreza em si. Além disso, na decisão de cometer um delito, parecem pesar fortemente outros “ganhos”, como a “adrenalina” envolvida, a contestação da autoridade, o prestígio e o pertencimento a um subgrupo.
Dentro do seu próprio círculo social, um assaltante pode ser respeitado e até admirado por sua audácia, sua bravura, sua esperteza, ainda que o restante da sociedade só tenha a deplorar seu comportamento. A pouca idade dos autores de roubo, geralmente adolescentes ou adultos jovens, comporia o pano de fundo. Em outras palavras o roubo seria ligado a um contexto de carência financeira, mas talvez um não seja causa do outro.
Crises duradouras certamente favorecem o crescimento desses subgrupos, mas eles não deixarão de ser pequenas minorias. Não acreditamos que hordas de pais de família desesperados saiam pelas ruas de armas em punho. Assim como talvez haja mais mendicância, é possível que especialmente os supermercados e o comércio de rua sofram mais furtos de mercadorias, mas uma explosão de assaltos é improvável.
Entre o estômago e a mão existe um cérebro, que faz escolhas racionais e irracionais, mas até certo ponto previsíveis, principalmente quando analisamos o comportamento coletivo e não apenas o individual. A escolha em massa de uma estratégia de sobrevivência fora da lei não é o desdobramento esperável.
*A coautora é professora do mestrado em Segurança Pública da UVV