Tem chamado a atenção o caso do jovem, ao que parece, jogado da ponte por policiais. O caso concreto deve ser apurado e julgado pelas autoridades competentes, não vamos nos meter a dizer o que aconteceu de verdade, mas o enredo serve para ilustrar um fenômeno contra o qual todo cuidado é pouco.
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche capturou isso de forma muito resumida e ilustrativa: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.
Algumas décadas depois, outro alemão, o psiquiatra Carl Jung concluiu que todos nós temos um lado sombrio de nosso inconsciente, uma parte obscura em nossa personalidade, que ele chamou de arquétipo da “sombra”. Algo como Dr. Jekyll e Mr. Hyde. E concluiu que a maneira de evitá-las é torná-las conscientes e enfrentá-las. Como ele disse, “ninguém se ilumina imaginando figuras de luz, mas se conscientizando da escuridão”.
Em 1971, o professor Philip Zimbardo, da Universidade de Stanford (EUA) realizou um experimento psicológico em que recrutou um grupo de pessoas sem nenhuma relação prévia com o crime ou com a polícia. Uma parte foi designada para fazer o papel de presos e outra, a de carcereiros, usando os porões do Departamento de Psicologia, que estava em férias, como “prisão”.
Em poucas horas integrantes de ambos os grupos já começavam não apenas a “entrar no papel” como a atuar exageradamente segundo estereótipos toscos de como seria um bandido ou um policial. Em alguns dias o experimento precisou ser abortado devido às fortes agressões dos “policiais” aos “criminosos”, que entraram em motim. Notem que todos sabiam que ninguém ali realmente havia cometido um crime, como tampouco alguém era policial.
O experimento nunca mais foi repetido, por razões éticas óbvias, e não se pode atestar completamente a sua validade científica, mas a conclusão inevitável é que qualquer pessoa, mas qualquer uma mesmo, colocada em determinado papel social, pode perder o contato com a realidade. E quando isso acontece, a tendência é imitar padrões fantasiosos e absurdos de como ela acha que esse papel social se comporta ou daquilo que a sociedade espera de quem ocupa essa posição.
Boa parte da sociedade apoia ou mesmo cobra a morte de suspeitos, mas não põe a cara dela na reta. Se der ouvidos a essa fala, ou se por outro motivo o policial entrar nesse personagem distorcido, logo se verá metido nas piores situações, e é o CPF dele que estará em jogo. É preciso treinar o policial constantemente e reciclá-lo periodicamente para evitar que caia nessa armadilha da nossa psique.