Todo mundo quer ganhar as discussões (ou, pelo menos, não gosta de perder), mas estar certo é muito diferente de receber aplausos. A verdade é filha do tempo, não da autoridade e muito menos da multidão ou de argumentos fáceis de criar e de digerir. Contudo, existe um truque muito simples para estar sempre com a razão: é perceber que você é que deve se colocar onde acha que ela está, não esperar que ela o siga aonde quer que você vá.
Em outras palavras, basta se posicionar exatamente da maneira que você sinceramente acredita, neste momento, ser a correta e se manter preparado para mudar se perceber que estava errado ainda que apenas um pouco, ou se simplesmente as coisas não estão mais como eram. Ninguém pode ser o dono da verdade, mas o contrário é possível: ceder ante às evidências, revisar constantemente nossas convicções, ouvir atentamente vozes discordantes, porém leais na divergência. Temos alguns exemplos bem ilustrativos, embora opostos.
Há mais de cem anos que a Humanidade tenta desesperadamente enfrentar o triste e gravíssimo problema do abuso de substâncias psicoativas apostando todas as suas fichas na repressão criminal, jogando toda a responsabilidade para as polícias e autoridades penais. O fracasso é retumbante.
Já experimentamos de tudo: e o consumo só aumenta, em todas as partes do globo terrestre. Os únicos países que conseguiram algum avanço – muito tímido, por sinal – foram aqueles que flexibilizaram suas regras penais e apostaram em outras formas de enfrentamento, inclusive as políticas de redução de danos.
Não que tenham encontrado a solução mágica; devido à baixa confiabilidade das estatísticas nessa área, não podemos nem sequer ter certeza de que realmente tiveram ganhos, mas ao menos se pode afirmar que o oposto não aconteceu: a descriminalização com certeza não levou a aumento no consumo. Em resumo: não sabemos o que vai resolver o problema das drogas, mas já deveríamos ter reconhecido aquilo que não o fará.
Como contraponto, depois de 12 anos, o Espírito Santo conseguiu reduzir pela metade o número de homicídios. Para isso foi traçada uma estratégia que, felizmente, foi mantida, mesmo com mudanças de governos e de secretários: a Polícia Militar daria prioridade à apreensão de armas de fogo ilegais e a Polícia Civil, à investigação dos assassinatos. O objetivo não era uma redução drástica nas estatísticas, mas um decréscimo lento, porém sustentável, nesse indicador.
Na época, a opinião pública e a publicada consideravam essa incumbência tão impossível quanto desnecessária, já que a maioria das vítimas “é bandido”. Talvez houvesse uma bala de prata, alguma panaceia que resolvesse de uma só cartada a guerra civil que vivíamos, mas eu continuo não conhecendo nenhuma. Agora todo mundo percebe que é possível e importante diminuir a violência letal.
Da mesma forma, 25 anos atrás, quando o governo federal, em vez de uma intervenção no ES, anunciou a criação de uma Missão Especial de Combate ao Crime Organizado, ela foi objeto de troça. Chamaram-na de Força Tarrafa, Fraca Tarefa, Missão Espacial e mais outros trocadilhos nem sempre publicáveis. Vamos falar a verdade: ninguém acreditava em qualquer progresso. Quatro anos depois, o trabalho dela não estava acabado (e nunca estará), mas todos os que testemunharam essa época sabem que fez muita diferença.
Nenhum desses avanços foi obtido por uma única instituição, muito menos pode ser atribuída individualmente a uma pessoa. Não tem um herói para ser incensado. Não tem Batman. Apenas trabalho duro, paciente, integrado, coletivo, de gente que às vezes não ocupava cargo público nem tinha qualquer remuneração. São apenas estratégias que, com os anos, provaram-se boas. Não perfeitas, talvez nem as melhores, mas funcionaram.
O que essas estratégias bem-sucedidas têm em comum? Em primeiro lugar, não tinham um dono ou salvador da pátria; foram concebidas por muitas cabeças e executadas pelo dobro de mãos. Em segundo, houve a disposição de se manter o que estava dando certo, a despeito de rivalidades políticas e de conflitos entre egos inflados. Por fim, os envolvidos cuidaram de se ajoelhar diante da verdade, em vez de quererem que ela se curvasse a eles.