Outra coluna já estava programada para ser publicada no lugar desta, quando surge a notícia de que a Polícia Civil encontrou quase 200 motores em um desmanche de automóveis, prendendo quatro pessoas. Esse fato é muito mais importante para a segurança pública do que pode parecer, especialmente se o colocarmos sob uma perspectiva de um novo modo de funcionamento das instituições de repressão criminal. Ela ilustra de maneira concreta algumas teorias que vínhamos defendendo aqui.
A primeira delas é a de que é equivocada a estratégia de priorizar a prisão em flagrante, como se a punição pelos crimes só tivesse utilidade se for imediata. É claro que os proprietários dos veículos pouco ou nada receberão de volta, não havendo valor em um motor enferrujado. No entanto, todos os crimes futuros desses meliantes foram cortados pela raiz.
A segunda é a de que não se deve focar na quantidade, mas na qualidade das prisões. Fica evidente que o alvo dessa operação não eram ladrões de galinha, que podem ser presos às centenas sem modificar o quadro de insegurança. Também as provas serão certamente mais robustas, seja pelas investigações que provavelmente precederam a operação, seja pela grande quantidade que poderá ser obtida após a localização do desmanche.
A terceira é a de que não é necessário prender pessoas aos milhares para obter resultados. Um latrocida extremamente ativo ocupa o mesmo espaço na cela que alguém que furtou uma peça de roupa sem violência contra pessoas. Claro que o primeiro receberá uma pena maior e, portanto, tomará esse lugar na cadeia por mais tempo, porém é fácil perceber que, concentrando a atuação das polícias em alvos estrategicamente escolhidos, é possível realizar um trabalho mais eficiente e, ao mesmo tempo, reduzir a superlotação nos presídios.
A quarta é a de que não é necessário solucionar todos os crimes patrimoniais, visto que os ladrões que realmente importa prender são aqueles que os praticam com maior frequência e/ou violência. Portanto, com algumas poucas investigações bem-sucedidas é possível reduzir em cerca de 80% o total de ocorrências graves, desde que os alvos sejam bem selecionados.
A quinta é a de que bom resultados em relação às modalidades criminosas mais graves (no caso, os homicídios) abres espaço para que se inicie um trabalho semelhante em uma segunda prioridade (que propomos que sejam os crimes patrimoniais) e, depois, uma terceira etc. Com paciência, persistência e inteligência (nos dois sentidos), há muito o que pode ser feito contra a insegurança, sim.
A última delas: exigir um policial em cada esquina, apostar todas as fichas em patrulhamento preventivo não é uma boa estratégia. Se a polícia não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, o importante é que esteja no lugar e na hora certa. A população não deveria exigir ver o policial nas ruas, mas o resultado do trabalho desses profissionais. Em se tratando de reprimir o crime, o melhor funcionamento é silencioso e quase invisível.