No final das contas, um balanço da evolução dos homicídios no ano anterior é quase obrigatório em nossa primeira coluna de janeiro. Felizmente, essas colunas têm sido repetitivas, pela simples razão de que o Espírito Santo continua com os números em queda lenta, porém sustentada.
Grandes saltos para cima ou para baixo indicam “externalidades”, início ou fim de uma guerra entre quadrilhas de traficantes, ou que uma facção mais madura, como o PCC, se tornou hegemônica, impondo uma restrição a assassinatos, mas não a outros crimes, obviamente. De qualquer modo, não é lá muito confortador saber que uma paz instável se instalou graças a uma organização criminosa.
Então, obter cerca de 3% de redução não está nada mal, já que ela vem coroando duas décadas de redução sistemática, da qual resultou, em 2023, menos da metade dos números que tínhamos para mostrar. E finalmente estamos em “apenas” 3 dígitos, ou seja, abaixo de mil registros.
Na Região Metropolitana, apenas Vitória teve aumento, muito provavelmente devido ao fortalecimento de uma facção cuja existência até pouco tempo atrás era negada e ao desencadeamento de disputas por territórios para tráfico. As regiões Sul e Serrana só deram notícias boas, enquanto todas as áreas integradas de segurança pública nas regiões Norte Noroestes contribuíram para piorar as estatísticas.
Essa concentração dos aumentos em duas áreas do interior cria um desafio, mas também oportunidades, pois uma melhoria localizada das condições de trabalho e produtividade policial não exigiria tanto deslocamento de recursos, já que são populações menores. Na verdade, Linhares, sozinha, poderia ter dobrado a redução de 2023, se houvesse acompanhado a evolução da Serra.
Tem sido muito interessante a nem tão sistemática redução dos homicídios contra mulheres, foi de 8% em 2023. Esses crimes têm mantido uma participação ligeiramente inferior a 10% do total, mas isso não foi nada homogêneo na comparação entre regiões. Também parece que a participação da mulheres entre as vítimas é significativamente maior nas regiões como números absolutos. Isso sugere que os crimes passionais estão caindo mais devagar que os relacionados ao tráfico. Um excelente tema tanto para estudos acadêmicos como para análise de inteligência.
De qualquer forma, essa teoria de que a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio tiveram efeito contrário ao pretendido claramente não tem sustentação. A explicação é simples: está ocorrendo uma mudança cultural até bem rápida e hoje estão sendo enquadrados pelas autoridades públicas, como feminicídio, crimes que alguns anos seriam considerados homicídio comum.
Uma nota importante é que foi anunciado concurso para a Polícia Civil, que é a encarregada das investigações e será fácil dar um reforço nas áreas onde a violência resiste em cair. Por outro lado, muitas delegacias de interior nem sequer têm kits de arrombamento, que são baratos, não exigem gastos adicionais e duram quase que para sempre, não custava nada um pouco mais de atenção para os policiais fora da Grande Vitória.