As escolas de educação básica no Brasil felizmente voltaram a funcionar de forma presencial. Muito se tem falado das defasagens de aprendizagens que as crianças, adolescentes e jovens apresentam e que as escolas e os professores têm que se reprogramar para ajudar os estudantes a desenvolver as competências não desenvolvidas durante a pandemia, mas pouco se fala do importante e indispensável apoio das famílias nesse processo.
Esse assunto foi tratado no Seminário de Educação, promovido pelo Instituto Singularidades em parceria com a Universidade de Harvard, nos dias 28 a 31 de março. A professora e pesquisadora Nancy Hill, da Faculdade de Educação de Harvard, trouxe boas sugestões de como os pais podem ajudar os seus filhos em parceria com as escolas no esforço de retomada do processo de aprendizagem.
Hill faz uma diferenciação do papel dos pais na orientação das crianças pequenas e dos adolescentes/jovens. No caso dos pequenos, da educação infantil e do ensino fundamental anos iniciais, o envolvimento dos pais é mais direto e frequente, na presença no ambiente escolar, no contato com a escola e os educadores e no apoio na realização do dever de casa. No caso dos adolescentes/jovens, do ensino fundamental anos finais e do ensino médio, que estão descobrindo e construindo sua autonomia, o papel dos pais deve ser diferente, mais indireto e de estímulo à descoberta de novas formas de estudar por conta própria.
Hill indica quatro estratégias eficazes de apoio dos pais aos filhos estudantes adolescentes/jovens. Os pais devem auxiliar os adolescentes/jovens, através de diálogos constantes, a fazer a ligação do que estão estudando no momento presente com o futuro que desejam. Abordar sempre o projeto de vida do filho e enfatizar a relevância do que estão aprendendo agora para o seu sucesso no futuro. Isso gera mais engajamento dos adolescentes/jovens com a escola e os estudos.
O apoio na realização dos trabalhos de casa é fundamental, mas deve ser diferente do que era feito quando os filhos eram mais novos. Neste caso, os pais não devem se envolver diretamente, mas ajudar os adolescentes/jovens a descobrir, por sua própria conta, novas formas de aprender. Lembrar que os adolescentes estão descobrindo e construindo sua autonomia e procuram resolver seus problemas de forma própria. Esse aprendizado é decisivo para construção da sua personalidade, seu engajamento e seu sucesso futuro.
As várias formas de comunicação são absolutamente estratégicas. Pais devem ser proativos na comunicação com os filhos. Devem também manter um fluxo próprio e contínuo de comunicação com a escola e os educadores. Por fim, devem construir momentos de comunicação de todos os envolvidos, pais, educadores e educandos, para compartilhar desafios, dúvidas e conquistas e reforçar a disposição de todos com a ajuda mútua.
Os pais devem ainda acionar os aprendizados do período da pandemia, quando a escola foi para dentro de suas casas e eles tiveram, de certa forma, que assumir o papel dos professores. Eles ficaram mais próximos de seus filhos, passaram a compreender melhor os desafios que os professores enfrentam no dia a dia das escolas e intensificaram a comunicação virtual com os professores. Novas formas de relacionamento foram ativadas. Elas são valiosas neste momento pós-pandemia e devem ser mantidas e intensificadas.
Por fim, dois pontos de atenção para os pais. O isolamento imposto pela pandemia deixou consequências positivas e negativas. A reflexão proporcionada durante a pandemia fez com que muitos adolescentes revisitassem os seus projetos e propósitos de vida. Isso precisa ser explicitado e bem compreendido por todos, estudantes, pais e educadores. Mudou o propósito, muda a direção do engajamento.
O isolamento fez também aumentar os problemas de saúde mental nos adolescentes/jovens, sobretudo ansiedade e depressão. É preciso uma sintonia fina das famílias com os educadores para identificação precoce dos sintomas e encaminhamento para atendimento adequado e tempestivo.
Neste momento, mais do que nunca, é fundamental a parceira das famílias com as escolas e vice-versa. Precisamos cuidar, com acolhimento e carinho, dos adolescentes e jovens.