Creio que os pais e educadores devem tomar esta decisão, enquanto é tempo de salvar a saúde mental das crianças: tirar o celular com internet das mãos das crianças. Criança precisa brincar, conversar, interagir, ser criança, e isso não acontece quando fica grudada o tempo todo na tela viciante do celular.
As crianças pequenas, de 1 a 5 anos, adoram assistir aos filmes infantis na telinha: Galinha Pintadinha, Peppa Pig, Patrulha Canina e outros mais atuais. Até aí, tudo bem, se os pais limitarem o tempo a que ficam expostas e controlarem ao que assistem. O problema é quando elas entram na terceira infância, a partir dos 6 anos, não querem mais ser identificadas como crianças e só querem assistir a programas de adultos, usar redes sociais, ter seus grupos no Whatsapp, canais e páginas. Vejo pais encantados pelo fato de os filhos menores de dez anos postarem vídeos no YouTube e terem vida ativa na rede como se isso fosse um grande avanço cultural. Estão redondamente enganados.
Alguns países, mais avançados nessa discussão, criaram legislação que proíbe uso de celular com internet às crianças. Um grupo de pais do Reino Unido lançou uma campanha que defende a proibição do uso de celulares para menores de 16 anos. Eles argumentam que os aparelhos deixam as crianças distraídas, isoladas e depressivas e tornam os menores digitalmente dependentes, como qualquer droga.
Crianças não podem dirigir, usar álcool ou cigarros, ver filmes com conteúdo adulto e, no entanto, têm acesso a coisas muito piores nos celulares. Alguns neuropsicólogos afirmam que o risco de problemas psicológicos e comportamentais, como TDAH, depressão e agressividade, aumenta conforme o tempo de tela dos pequenos.
Em Greystones, na Irlanda, firmou-se um pacto coletivo entre pais e escolas para proibir o uso de celulares por crianças e adolescentes até que eles cheguem ao ensino médio. Com isso, ninguém se sente excluído e a decisão vale para todo lugar, na escola ou em casa. O ministro da Saúde da Irlanda reforçou a iniciativa voluntária, em artigo do Irish Times: “Nós precisamos facilitar para os pais a limitação dos conteúdos a que seus filhos são expostos”, escreveu. Esse pacto coletivo entre pais visa proteger crianças e jovens dos altos níveis de ansiedade por que estão passando.
A partir de 2018, a França passou a proibir o uso de celulares nas escolas, uma das promessas de campanha de Macron. Em Taiwan, o governo aprovou uma lei que restringe o uso de celulares, tablets ou computadores por crianças, por períodos prolongados, e multa os pais que a descumprirem. Leis similares existem na China e na Coreia do Sul. A Academia Americana de Pediatras indica que duas horas é o máximo que uma criança pode passar usando aparelhos eletrônicos por dia e também recomenda que não haja TV nem conexão com a internet no quarto de dormir.
Meu neto de seis anos ganhou um celular de presente, seu sonho de consumo. Os pais tentam controlar o tempo de tela e o conteúdo a que assiste, mas não é fácil. Ele adora ver tudo no YouTube, mas odeia o YouTube Kids. Semana passada, o pai passou, viu o que ele estava vendo e era “Os 30 crimes mais violentos”. Imediatamente, tomou-lhe o celular, deu-lhe uma bronca, mas já era tarde.
Por isso, é preciso estar atento e forte, sem medo de interromper o mal provocado pelo uso indevido de celulares por crianças. Pais e educadores são muito rigorosos com livros destinados ao público menor de idade, mas pouco têm feito em relação ao uso de celulares, que podem lhes trazer um prejuízo muito maior do que o de qualquer produto escrito.
Da mesma forma, nossos congressistas devem discutir, ouvir a sociedade civil organizada e legislar sobre o uso indiscriminado desse produto tecnológico tão sedutor, mas também tão pernicioso para a saúde mental de nossas crianças e jovens.