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Brasil

O Sete de Setembro do "imbrochável"

Na triste comemoração do Bicentenário da Independência, uma parte do Brasil se veste de verde e amarelo, não para comemorar a data, mas para afirmar o ódio contra os que não são bolsonaristas

Publicado em 12 de Setembro de 2022 às 00:05

Públicado em 

12 set 2022 às 00:05
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

O presidente Jair Bolsonaro (PL), acompanhado da primeira-dama Michelle Bolsonaro, participa do desfile de 7 de Setembro na Esplanada dos Ministérios
O presidente Jair Bolsonaro (PL), acompanhado da primeira-dama Michelle Bolsonaro, participa do desfile de 7 de Setembro na Esplanada dos Ministérios Crédito: EDU ANDRADE/Fatopress/Folhapress
Lembro-me das comemorações do Sete de Setembro da minha infância com muita alegria. Na pequena Santa Bárbara do Caparaó, atual Ibitirama, toda a comunidade se envolvia nas comemorações da nossa maior data cívica. Não havia militares para desfilar, apenas nós, os alunos do grupo escolar, fazíamos a festa, que preparávamos com muita antecedência.
Eu me lembro que meu único colega que ia à escola a cavalo fazia o D. Pedro I, montado no seu belo cavalo alazão, que tanta inveja nos causava. Tempos depois, como vereador, ele foi autor da lei municipal que me concedeu o título de Cidadão Ibitiramense ausente, que guardo com muito carinho.
Eu saía na parada como Padre Anchieta, em meio a primas e primos vestidos de indígenas, enfeitados com tangas e cocares de penas de galinhas feitos por minha mãe. Minha irmã saía de baliza, vestida de amarelo, uma das quatro que carregavam a bandeira nacional, com muito orgulho. Meu irmão saía no pelotão de canarinhos, representando a seleção nacional de futebol, vencedora dos campeonatos mundiais de 1958 e de 1962. Cantávamos o Hino da Independência, o “Já podeis da pátria filhos”, sempre parodiado pelo “japonês tem quatro filhos”, o “Fibra de herói”, “Se a Pátria querida for envolvida pelo inimigo...” e o mais popular “Sete de Setembro data tão festiva foi a independência desta terra tão querida”.
No último ano que passamos em Ibitirama, houve o golpe militar. Mamãe passou-nos o medo de que papai, jovem reservista, pudesse ser convocado para a guerra civil que se vislumbrava no horizonte sangrento. Não houve, pois os militares tomaram o poder com tanta ganância que só o largaram vinte e seis anos depois, massacrando os opositores com prisões, sequestros, mortes, expulsões, fechamento do Congresso Nacional, censura à imprensa e toda tipo de repressão.
Foram os tempos de chumbo tão bem retratados nos livros de Elio Gaspari e no “Mata!”, do jornalista capixaba Leonêncio Nossa. Meu pai se foi, carregado pela enchente, em janeiro de 1966, e foi muito difícil ter sobrevivido àqueles anos sem ele ao nosso lado, para nos proteger. Nossa estrutura familiar se desmoronou e tivemos de passar de crianças a adultos de repente, sem estarmos preparados psicologicamente. Nunca mais o Sete de Setembro teve a alegria de quando o passamos ao lado dele, um nacionalista convicto dos valores de amor à pátria e ao próximo como a si mesmo, que nos deixou de legado.
Em 1972, comemorou-se o Sesquicentenário da Independência do Brasil, em plena ditadura militar. Foi uma festa deles. Tanques na rua, aviões da Esquadrilha da Fumaça, Olimpíadas Militares, tudo para coroar o sucesso da "revolução". Grandes Projetos como Transamazônica, Ponte Rio-Niterói, CST, enalteciam o Brasil que deu certo, o “ame-o ou deixe-o”, a cantiga de Tom e Ravel repetida à exaustão, “as praias do Brasil ensolaradas”. Tirei meu primeiro passaporte, ao fazer 18 anos, e quis ir embora. A morte de minha mãe e a tutela dos meus irmãos impediram meus sonhos. Cantava com Milton Nascimento: “Já não sonho, hoje faço com meu braço meu viver”.
Vieram a crise do petróleo e as contas dos empréstimos feitos pelos militares. O Brasil quebrou. Só assim os militares aceitaram sair do poder, pressionados pelo movimento das “Diretas Já”, numa abertura democrática “lenta, gradual e segura”. Tancredo ganhou, mas não levou. Sarney, desde sempre aliado dos militares, assumiu e acabou de afundar o país.
Na primeira eleição democrática pós-golpe, o povo elegeu o Collor, que desfilava de jet-ski como o atual, e se intitulava caçador de marajás. Ironicamente, era o próprio. Aí vieram Itamar e FHC, que estabilizaram a economia. Como herança maldita, o instituto da reeleição, que nunca deveria ter sido criado. Depois, foram Lula e Dilma, que criaram grandes projetos sociais, mas saíram do poder com a marca de corrupção sempre lembrada pelos adversários. Temer, o Breve, deu o golpe e preparou o caminho para o "imbrochável".
Na triste comemoração do bicentenário da Independência, uma parte do Brasil se veste de verde e amarelo, não para comemorar a Independência do Brasil, mas para afirmar o ódio contra os que não são bolsonaristas, instigando uma rivalidade entre eles, os ‘verdadeiros brasileiros’, seguidores do inominável, e nós, os ‘comunistas’. Muito triste tudo isso!
O Brasil é um país que merece respeito, por sua história, pela diversidade de seu povo, por suas riquezas e por ser uma das maiores democracias do mundo. Não se pode deixar que um arremedo de Trump e de Hitler, com a sua ideologia nazifascista, continue à frente desta nossa grande nação. Ele é que é o mal, que precisa ser extirpado. Aguardemos as próximas eleições. Deus salve o Brasil!

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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