Houve um tempo, nas décadas de 1980 a 2010, mais ou menos, em que havia Feiras de Livros em Vitória. E era uma festa. Elas começaram na Praça Costa Pereira, depois se estenderam para o Ginásio Dom Bosco até terminar nos estacionamentos dos shoppings.
Nos últimos dez anos, o mundo mudou muito, e pra pior! As redes sociais tomaram corações e mentes das pessoas, e o livro deixou de ser um objeto consumido por elas. Com o Programa Nacional de Leitura, o Proler, criado em 1992, saíamos em caravanas por municípios, motivando todos à leitura. Fizemos muito, mas fomos vencidos. Hoje, as bibliotecas estão às moscas, livrarias fecharam, editoras físicas se extinguiram e o mundo virtual venceu. Ficaram as lembranças.
Entre as boas coisas que as feiras de livros trouxeram, havia o contato físico com os principais escritores da época. Entrávamos em contato com as editoras e eles nos mandavam os escritores que estavam lançando livros para encontros, debates, diálogos. Pudemos trazer a Vitória Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti; Moacyr Scliar e Ignácio de Loyola Brandão; Ana Miranda e Rachel de Queiroz; Luiz Fernando Veríssimo, Geir Campos e muita gente mais. Ziraldo e Ana Maria Machado vinham todo ano. O sucesso com a criançada era garantido.
A todos oferecíamos uma moqueca de almoço e, geralmente, voltavam no mesmo dia. Os encontros ocorriam no auditório do Carmo, no Teatro Carlos Gomes, nos cinemas dos shoppings, no auditório dos Salesianos ou na Ufes. Foram anos de muito diálogo, afeto e humanidade, tudo o que o encontro autor/obra/leitor pode proporcionar.
Para mim, foi inesquecível o encontro com Rachel de Queiroz, a primeira escritora a entrar na Academia Brasileira de Letras, em 1977. Conhecia a obra dela desde “O Quinze”, romance que a consagrou e que lia com os alunos, todos os anos. Era o mesmo tema do “Vidas Secas”, mas sob o olhar feminino de Conceição, alter-ego da autora.
Também lia as crônicas dela publicadas em jornais e revistas da época. Na última página de “O Cruzeiro”, ela fechava com chave de ouro. Já na maturidade, após uma vida dedicada à literatura e à escrita, Rachel estoura com seus dois últimos romances, “Dôra, Doralina” e “Memorial de Maria Moura”, este último tendo virado minissérie de sucesso.
Agora, trinta anos depois desse encontro em Vitória, releio as crônicas publicadas em “As Terras Ásperas”, que registram o que ela escreveu de 1988 a 1992, tempo crucial de nossa história, em que recuperamos o direito de votar para presidente e escolhemos mal, Collor, de triste memória, que ela chama de “menino mimado de Brasília”.
Entre as crônicas publicadas no livro, destaco a “Porte de Arma”, que assino embaixo. Ela começa citando um assassinato num bar, por motivo fútil, e pergunta: “Por que, numa civilização que a cada dia mais se preocupa com a defesa e a conservação da vida, se permite a fabricação e a venda livres de armas de fogo?” E continua o argumento: “Todas as demais armas inventadas pelo homem têm sempre uma utilidade paralela à sua qualidade ofensiva. [...] Mas com um revólver, uma escopeta, um fuzil, você só pode matar.[...] Então, por que deixar fabricar e vender armas de fogo, se elas só se destinam ao uso assassino de eliminar vidas?”.
Pois é, Dona Rachel, se a senhora estivesse vivendo no Brasil de hoje, veria o quanto pioramos. Elegemos um Collor muito pior, perverso, defensor da morte e não da vida, um jagunço muito pior do que a senhora descrevia nos seus romances. Foi melhor ter ido antes, mesmo. Descanse em paz, Dona Rachel.