Neste mês de março, em que se comemorou (?), o Dia Internacional da Mulher, quero lembrar aos leitores desta coluna o nome da escritora ucraniana Svetlana Aleksiévitch, filha de pai bielorusso e de mãe ucraniana, nascida em Stanislav, em 1948. Ela publicou vários livros, dentre os quais, o mais conhecido é “Vozes de Tchernóbil”, o primeiro livro dela editado no Brasil.
Nele, faz emocionante relato sobre as consequências do acidente nuclear sobre as pessoas naquele pavoroso acontecimento, que matou várias pessoas, sobretudo crianças, por muitos anos. O pior de tudo é que a tragédia pode voltar, com a guerra na Ucrânia, desencadeada pela besta-fera Vladimir Putin, que está tomando o controle das usinas nucleares ucranianas, para ameaçar o mundo. Só Deus para segurar a sanha sanguinária desse maluco e São Miguel Arcanjo, protetor de Kiev, para livrar o povo ucraniano da destruição total.
Outro livro que lhe deu o galardão do Nobel em 2015 é o que dá título a este artigo, “A guerra não tem rosto de mulher”, publicado em 2016, que relata a história das guerras sob outro ponto de vista que não o masculino: soldados e generais, algozes e libertadores. No entanto, as mulheres sempre participaram das guerras lideradas por homens, seja na retaguarda, como apoio, seja na linha de frente dos campos de batalha.
É esse capítulo de bravura feminina que Svetlana Aleksiévitch reconstrói neste livro absolutamente apaixonante e forte. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho Russo, durante a Segunda Guerra Mundial, mas a sua história nunca foi contada. A autora deixa que as vozes dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente da morte.
Nesse mesmo ano, também saiu “O fim do homem soviético”, em que relata o fim da União Soviética. O povo russo assistiu com espanto à queda do Império Soviético. A política de abertura do governo Gorbatchóv impôs uma mudança drástica da estrutura social, do cotidiano e, sobretudo, da direção ideológica da população.
No livro, Svetlana Aleksiévitch examina a vida das pessoas afetadas por essa transformação. Em cada personagem está um pouco da história russa - a mãe cuja filha morreu em um atentado; a antiga funcionária do Partido Comunista que coleciona carteiras abandonadas de ex-filiados; o velho militante que passou dez anos em um campo de trabalhos forçados. O livro traz um painel fantástico de russos de todas as idades que se movem entre a possibilidade de uma vida diferente e a derrocada da sociedade que conhecem.
Em 2018, foi publicado “As últimas testemunhas”, livro doloroso e potente, em que Svetlana reuniu os relatos francos de vários sobreviventes da Segunda Guerra que, quando crianças, testemunharam horrores que nenhum ser humano jamais deveria experimentar. A Segunda Guerra Mundial matou quase 13 milhões de crianças e, em 1945, apenas na Bielorrússia, havia cerca de 27 mil delas em orfanatos, resultado da devastação tremenda causada pelo conflito no país.
Entre 1978 e 2004, a jornalista entrevistou uma centena desses sobreviventes e, a partir de seus testemunhos, criou uma narrativa estupenda e brutal de uma das maiores tragédias da história. A leitura dessas memórias não é nada além de devastadora. Diante da experiência dessas crianças se revela uma dimensão pavorosa do que é viver num tempo de terror constante, cercado de morte, fome, desamparo, frio e todo tipo de sofrimento. E o que resta da infância em uma realidade em que nada é poupado aos pequenos? Neste retrato pessoal e inédito sobre essas jovens testemunhas, a autora realizou uma obra-prima literária a partir das próprias vozes de seus protagonistas, que emprestaram suas palavras para construir uma história oral da Segunda Guerra.
Em 2020, saiu “Meninos de Zinco”, sua última obra publicada em nosso país. Neste momento terrível, em que o mundo assiste aterrorizado a uma possível destruição da Ucrânia e, se Deus não impedir, do nosso planeta, leiamos Svetlana Aleksiévitch, enquanto podemos. Deus salve a Ucrânia e o povo ucraniano!