O furto de 21 armas de grosso calibre do Arsenal de Guerra São Paulo (AGSP), em Barueri/SP, deu o que falar nos últimos dias. Não é para menos! Conforme amplamente divulgado pela imprensa, 8 armas de calibre 7.62 e 13 de calibre .50 (todas armas de guerra, com altíssimo poder de destruição) foram subtraídas de uma das unidades do Exército para serem vendidas ao crime organizado. Apesar do furto ter sido descoberto no dia 10 de outubro, há suspeitas de que o desvio tenha ocorrido ainda no mês de setembro.
A mera possibilidade de que todo esse arsenal fosse parar nas mãos das facções criminosas dos grandes centros urbanos assusta. O fato de estarmos falando de armas que foram furtadas de uma instalação militar assusta ainda mais! As metralhadoras desviadas são equipamentos capazes de derrubar aeronaves ou de destruir carros fortes ou blindados e não poderiam, em hipótese alguma, colocar em risco a vida ou o patrimônio de inocentes.
A boa notícia é que o Exército, tão logo descobriu o desvio, agiu rápido. Cerca de 480 militares foram obrigados a permanecer no quartel e tiveram seus telefones celulares apreendidos. Essa medida, muito provavelmente, foi fundamental para que as investigações fossem parcialmente bem-sucedidas, viabilizando a recuperação de 17 das 21 metralhadoras furtadas.
Oito armas foram encontradas pela Polícia Civil, em parceria com a inteligência do Exército, na zona oeste do Rio de Janeiro. Outras nove foram encontradas em São Roque, interior de São Paulo, também numa parceria realizada entre a Polícia Civil e o Exército.
O que mais chama a atenção neste episódio é que não se trata de um fato isolado. Não é novidade que os criminosos procuram se abastecer de armas e munições buscando os arsenais dos militares, das polícias e das empresas de segurança privada. Uma CPI realizada em 2015 pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro constatou que entre 2005 e 2015 haviam sido desviadas 19.000 armas de fogo, sendo que 700 foram furtadas de quartéis da PM, 900 de delegacias e 17.000 de empresas de segurança privada.
Cerca de 30% dessas armas foram parar nas mãos de bandidos. Segundo o Instituto Sou da Paz, entre janeiro de 2015 e março de 2020, 27 armas foram desviadas de unidades do Exército. Foram 10 fuzis, 9 pistolas, 5 espingardas, 1 submetralhadora e 2 metralhadoras.
A recorrência desse tipo de evento aliada à quantidade de armas de grosso calibre desviadas neste último caso aumenta a gravidade do ocorrido. É público e notório que os criminosos precisam de armas para a condução de seus “negócios”. Também é reconhecida a ousadia desses mesmos bandidos que, invariavelmente, acabam se valendo de furtos em instituições públicas para se abastecerem de armas. Esse cenário demonstra a necessidade do cuidado redobrado que as instituições (públicas ou privadas) devem ter quando tiverem armamentos, munições e explosivos em suas estruturas físicas.
É importantíssimo que nossas instituições policiais e militares, assim como as empresas de segurança privada, adotem uma mudança de cultura organizacional que aposte e invista no incremento da segurança orgânica. É fundamental que haja mecanismos de controle aptos a evitar novos desvios de armamentos.
O excesso de armas nas mãos de criminosos e as disputas por territórios travadas entre traficantes e milicianos têm transformado os grandes e médios centros urbanos brasileiros em verdadeiras zonas de guerra, aumentando o número de homicídios e gerando grande sensação de insegurança na sociedade. Não dá para, além de todos os desafios cotidianamente enfrentados pelas polícias, termos também que lidar com recorrentes desvios de armas de instituições que têm como missão precípua a proteção aos brasileiros.