Tenho repetido, inúmeras vezes, que a violência fundamentalista cristã tem se espalhado como rastilho de pólvora, capilarizando-se na sociedade por diversos modos e por estratégias metodológicas altamente eficazes.
Líderes religiosos autoritários, que buscam os seus próprios interesses e não os designíos do Cristo que afirmam seguir, utilizam-se dos púlpitos das igrejas evangélicas, em especial, para induzir ao ódio que violenta, agride, machuca e mata tanto na dimensão física, quanto moral, espiritual, emocional e mental, a todos os que se arvoram o direito de pensar e questionar qualquer regra por eles estabelecidas.
O que antes estava concentrado em denominações mais radicalizadas, com níveis de institucionalização menos orgânicas e sustentadas doutrinariamente, hoje se expandiu atingindo, inclusive, as denominações históricas, de matriz mais sólida na formação doutrinária, que sempre se afirmaram equilibradas, na doutrina, na gestão e no respeito aos fiéis.
Forjada no cristianismo calvinista presbiteriano, passei toda minha vida, desde a mais tenra idade, até a fase adulta, ouvindo e repetindo que o amor deveria ser a marca representativa do cristão. O selo que distinguiria os cristãos dos que não seguiam Jesus Cristo, o Deus filho amoroso e bondoso, que a todos acolhe, cuida, independente de suas fragilidades e condição social.
Com o avanço sistemático e potente do número de cristãos no Brasil, era de ser esperar que o amor, a tolerância, o acolhimento ao estrangeiro, aos pobres e aos que sofrem fossem também se ampliando e capilarizando na mesma medida.
No entanto, o que vimos crescer de forma exponencial é o ódio como discurso e prática, sendo exercido com cultura demarcatória do que é ser cristão na atualidade.
Na realidade, ao invés de influenciar positivamente a sociedade com os valores do cristianismo, todos eles compatíveis com o amor cristão tão propagado, o que aconteceu foi um desvirtuamento radical dos princípios do cristianismo autêntico e uma adesão a uma moralidade hipócrita.
É um cristianismo inautêntico comprometido com lideranças religiosas que não mais gozam de credibilidade e do respeito necessários àqueles que devem exercer o papel de lideres espirituais, confiáveis e respeitosos da ética cristã e dos valores morais.
O cristofascismo, estratégia metodológica de uma parcela dos políticos brasileiros, segue seu caminho, sem que os verdadeiros cristãos se movam para resistir às investidas radicais daqueles que se utilizam do nome de Cristo para seguir praticando o mal e a violência, apropriando-se dos bens que deveriam ser compartilhados com todos em uma sociedade que se deseja justa, solidária, amorosa e respeitosa do outro com quem compartilhamos a história.
Estamos chegando ao limite no processo de desconstrução dos marcos civilizatórios que alcançamos a partir de lutas seculares por justiça, paz e dignidade.
Ou nos unimos contra o cristofascismo ou deixaremos de existir como sociedade democrática e livre, onde o cristianismo possa ver vivenciado sem perseguição, mas também sem ocupar o lugar de perseguidor e violentador em potencial.