Tive o privilégio de receber nesta segunda-feira (26) uma honraria que me provocou os sentimentos mais diversos, que vão da alegria mais singela à apreensão em razão dos compromissos decorrentes desse tipo de premiação .
O prêmio Dom Luís Gonzaga Fernandes, instituído pela lei estadual, n. 7844 de 2004, premia pessoas ou instituições que, de alguma forma, tiveram destaque na defesa dos Direitos Humanos, atuando com foco na justiça social e na luta pela preservação do meio ambiente.
A primeira coisa que fiz foi tentar conhecer Dom Luís, para além do conhecimento de acesso superficial que é público. Essa busca me foi motivada pelo desejo de ser fiel àquele que motivou a criação do prêmio.
Descobri em Dom Luís um homem simples que, enquanto bispo auxiliar de Vitória, no período mais crítico da ditadura militar (1965 a 1981), no qual as violações de direitos fundamentais eram naturalizadas, por parte do Estado, teve a coragem defender a vida, especialmente centrada na luta pelos mais pobres e vulneráveis.
Na construção do projeto virtuoso das Comunidades Eclesiais de Base, influenciou diretamente na resistência nacional pela democracia e na denúncia e luta contra o arbítrio e a tirania perpetuada pelos agentes do Estado.
Na luta pela garantia da dignidade humana, Dom Luís foi um fiel discípulo daquele que sustentava sua fé, Jesus Cristo. Exercitou um cristianismo autêntico, raiz, sem as negociatas que hoje maculam o as instituições religiosas.
Fortalecer a cidadania, promovendo processos emancipatórios, deve ser o exercício político por excelência da igreja.
Receber esse prêmio, por indicação da comissão do prêmio e aprovação do governador Renato Casagrande, me enche de orgulho e temor na mesma dimensão. Ter sido indicada por pessoas envolvidas na promoção e proteção dos Direitos Fundamentais, que atuam de forma firme, sistemática e compromissada com a busca de construção de uma cidadania consciente da justiça e da imperiosa busca de justiça justa e de enfrentamento das desigualdades sociais a partir de uma compreensão de que nossa constituição está sustentada em princípios da dignidade e fraternidade, me torna ainda mais consciente do esforço para fazer jus à honraria que acabo de receber.
Como mulher, em uma luta histórica pelo alcance de dignidade para as mulheres e redução das violências, apagamentos e silenciamentos, não poderia deixar de destacar a luta de Dom Luís pela igualdade entre homens e mulheres, a despeito de viver em uma cultura machista e patriarcal.
O prêmio me dignifica, me responsabiliza e me compromete ainda mais com a luta por justiça, dignidade, defesa da vida, da saúde, do meio ambiente e dos direitos humanos fundamentais em geral.
Participar da construção de uma sociedade mais justa, igualitária e humana passa a ser meu compromisso político mais radical a partir do recebimento desse prêmio.