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Discriminação

Pobres meninos ricos: "Sou playboy, não tenho culpa se seu pai é motoboy"

Na processo de formação de médicos e de todos os outros profissionais, a competência ética deve ser priorizada sobre a competência técnica e o desenvolvimento cognitivo

Públicado em 

18 out 2022 às 00:05
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Para os que afirmam não existir divisão de classes no Brasil, negando-a e taxando de esquerdistas e alimentadores de divisão aqueles que a declaram, o vídeo de estudantes de medicina que viralizou nas redes sociais, com acintosa manifestação de discriminação, desprezo e ódio pelos estudantes pobres, a quem “acusam” de serem filhos de motoboys, é uma clara evidência da tentativa de negar e de esconder aquilo que teima em mostrar-se de forma contundente.
O Brasil é um país caracterizado e conhecido por uma tríplice discriminação que nos empobrece e envergonha – discriminamos pobres, negros e mulheres, e isso não é possível negar.
Os estudantes de medicina da faculdade UNIG campus Itaperuna conseguiram mostrar toda a sua aporofobia, desprezo pelos pobres, tendo se esquecido que manifestações públicas, em tempos de redes sociais, viralizam de forma a mostrar a todos as provas de crimes e de pequeneza moral e intelectual.
O Brasil e o mundo agora sabem quem são os desprezíveis e frágeis futuros médicos aos quais vidas humanas estarão submetidas. Posso imaginar a vergonha e a dor de alguns desses pais que veem seus filhos se manifestarem dessa forma. Filhos aos quais dedicaram suas vidas e nos quais investem cerca de 10 mil reais por mês só de mensalidade do curso de medicina, fora outros custos para sustentá-los enquanto dizem estudar medicina.
Ao se autointitularem playboys, esses estudantes assumem sua verdadeira identidade. Nos dicionários encontramos que playboys são garotos mulherengos, ociosos, com vida social movimentada, chegados a exageros com bebidas, que se afirmam pela ostentação do dinheiro, normalmente conquistado pelos pais e não por eles mesmos.
Ao se afirmarem playboys, esses garotos, achando que estão ostentando um título que os qualifica, estão, na realidade, expondo sua frágil capacidade de conquistarem espaços de reconhecimento social e profissional por si mesmos, por seus próprios valores e capacidade.
Em contrapartida, ao designarem os pais de seus colegas pobres imaginando destratá-los afirmando serem motoboys, esses pobres e frágeis meninos ricos na realidade estão insultando trabalhadores, dignos e respeitados, que lutam para vencer a dura realidade da desigualdade de classe que teimamos em admitir e aceitar.
Esses homens, que se comportaram como meninos mimados e que foram banidos da cidade de Vassouras pelo prefeito, ainda que o banimento não coubesse nesse caso, violaram princípios constitucionais que nos são muito caros em razão do estágio civilizatório que alcançamos.
Ao infringir o princípio da Dignidade da Pessoa Humana, trouxeram opróbio para si mesmos. Não foram capazes de respeitar a Constituição que prescreve como objetivos da República Federativa do Brasil, dentre outros, a construção de uma sociedade livre, justa e solidária. Uma sociedade que promove o bem de todos, sem preconceito de origem, de raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Ao violar o valor social do trabalho, fundamento da República, atingiram coletivamente todos os trabalhadores que vivem do seus trabalho, garantindo a desenvolvimento da nação. Esqueceram-se dos tempos da pandemia, onde o trabalho dos motoboys, sobre os quais hoje cometem o crime de injúria, permitiu a eles permanecerem protegidos em casa em atividades on-line.
A Unig, Universidade de Iguaçu, que somente deverá agir após serem respeitados os trâmites administrativos de seu regimento, código de ética ou de integridade, garantido o devido processo legal, poderá expulsá-los. A expulsão, pena que nos parece bastante simbólica e inibidora de novas manifestações, poderá garantir um pouco de reparação aos danos individuais e coletivos causados em face das violações cometidas.
Possíveis ações criminais poderão ser impetradas em razão do crime de injúria. O que aconteceu não pode ser tratado com brincadeira inconsequente de meninos alegres em jogos estudantis.
Só é brincadeira quando todos os envolvidos assim a consideram e se sentem confortáveis. Discriminação é crime e assim deve ser tratada pela sociedade. Brincadeiras não humilham, depreciam e inferiorizam. Brincadeiras são atividades que nos alimentam o espírito e o que aconteceu não pode ser caracterizado dessa forma. É crime e violação ética e assim deve ser tratado.
Uma sociedade sadia, justa e solidária pressupõe uma ordem moral compartilhada por seus cidadãos.
Na processo de formação de médicos e de todos os outros profissionais, a competência ética deve ser priorizada sobre a competência técnica e o desenvolvimento cognitivo. Um médico é alguém que deve estar a serviço da vida e da saúde e não do crime e dos desvios e desvarios morais.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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