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Investigação

Pandora Papers: Paulo Guedes já deveria ter se afastado do poder

O homem médio brasileiro, que não conhece e não sabe o que significa offshore, talvez encontre dificuldade em justificar a inadequação da continuidade no poder de Guedes e de Roberto Campos Neto

Publicado em 05 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

05 out 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Ministro da Economia Paulo Guedes Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Paulo Guedes, ministro da Economia Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Do conforto de sua offshore, Paulo Guedes assiste, aparentemente impassível, mas em gozo, à corrida aos ossos no Brasil, aplaudido ou sustentado por um cristianismo frio, calculista e perverso, absolutamente distante dos pressupostos e dos valores do cristianismo autêntico.
A permanência no poder do ministro da Economia e de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, é incompatível, ética e juridicamente, devendo os dois serem afastados de imediato de seus cargos, investigados e punidos de forma a que não reste qualquer dúvida de que há um limite para o saque público, para o escárnio e para o desmonte do Estado.
O homem médio brasileiro, que não conhece e não sabe o que significa offshore, talvez encontre dificuldade em justificar a inadequação da continuidade no poder de Guedes e de Roberto Campos. Não é fácil, realmente, entender os mecanismos jurídicos envolvidos nessa trama bem tecida, que permite que homens públicos se utilizem de seus cargos para alavancar seu patrimônio, enquanto destroem a nação empurrando milhares de pessoas para uma condição de extrema miséria, onde comer é um luxo que não lhes está permitido.
Difícil entender a complexa tessitura econômica por detrás das decisões do governo federal que permitiram a Guedes sair de 35 para 51 milhões de dólares em tão curto espaço de tempo. A singela, e aparentemente inocente, alta de 39% na taxa do câmbio fez multiplicar, “por acaso”, os milhões de dólares depositados por Guedes no exterior.
A Comissão de Ética Pública que poderia — mas não o fez — adotar as medidas cabíveis que o caso requer, fechou os olhos de forma leniente, indecente e criminosa, compactuando com o ilícito e com os desvios éticos compatíveis com a decisão tomada. Deverá ser responsabilizada civil e criminalmente pela conivência.
Difícil aceitar a constatação de como o ódio e o desprezo pelos pobres conduziu milhares à extrema pobreza enquanto se regozijam, Bolsonaro e sua gangue, financiados pelos ocupantes de alguns escritórios da Faria Lima, escarniando dos pobres mortais que os sustentam no poder, por meio de uma cegueira, às vezes espiritual, fomentada por líderes, religiosos ou não, comprometidos com a mentira, com a hipocrisia e com o escárnio.
A abertura da caixa de pandora, vinda a público de forma inquestionável pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, expõe as hipocrisias e charlatanices de um governo que tornou o Brasil uma terra arrasada, de difícil recomposição.
É impossível de ser calculado o tempo lógico, cronológico e político necessário à interrupção do ciclo destrutivo e devastador que se abateu sobre o país de forma orquestrada, engenhosamente arquitetada e com alto poder de virulência mortífera.
Não há justificativa possível capaz de fornecer explicações minimamente aceitáveis para a conduta de Guedes e seus prepostos. Ao cometer um crime de responsabilidade, um homem com um mínimo de decência, ao serem revelados os seus “secretos” negócios, teria se corado de vergonha e se afastado imediatamente do poder.
Assistimos, ao longo da história, a muitos políticos e homens públicos que, ao serem acusados de crimes dessa natureza, tiraram suas próprias vidas, envergonhados de os terem cometido.
A Pandora Papers tornou pública a informação de que mais de 330 políticos, reis, ministros e funcionários públicos pertencentes aos altos escalões em 91 países possuem empresas em paraísos fiscais.
Esses segredos, “pecados” revelados, descortinam o mar de esgoto no qual estamos mergulhados, sem que haja qualquer possibilidade de interrupção da prática delituosa, já que entranhada na cultura política de muitos países e tolerada até mesmo por aqueles que sofrem as consequências diretas desse tipo de crime. Síndrome de Estocolmo, em essência, onde a vítima se apaixona pelo violador.
Os caminhos do poder e do dinheiro, na configuração política e tecnológica atual, são incompreensíveis para o típico homem médio brasileiro. Talvez o sejam também para parcela significativa de trabalhadores e trabalhadoras que, apesar de preparados intelectualmente, não possuem intimidade nem tempo suficiente para desvendar essas tortuosas sendas, só trilhadas por aqueles que possuem intimidade com a escuridão e com o submundo dos crimes chamados, no passado, de crimes de colarinho branco, cometidos por homens “de bem”, respeitados e admirados por sua alta capacidade de produzir riquezas para si próprios e miséria e morte para os demais, os quais consideram tolos, ignorantes e merecedores desse destino.
O projeto de destruição do serviço público, de redução do Estado e de transformação de homens em bestas-feras, que lutam pela sobrevivência disputando ossos para aplacar a fome, é um projeto vitorioso no Brasil.
A despeito de toda a violência discursiva e de todos os ataques que fez às empregadas domésticas, aos trabalhadores em geral, aos servidores públicos de forma acintosa e a toda a sociedade, que considera pobre, por opção e preguiça, Guedes se manteve firme no cargo concretizando o projeto ultraliberal que comanda com eficiência e perversidade.
A competência de Paulo Guedes é inquestionável. Ele conseguiu navegar em céu de brigadeiro durante esses quase 3 anos à frente do Ministério da Economia, sustentado por uma elite atrasada e insaciável que não consegue perceber que chegamos ao fim do túnel e que não há mais recursos a explorar nem vidas a expropriar.
A inteligência liberal, e ela existe, ainda que tímida e em pequena quantidade, já reconheceu que há um limite para a acumulação de riquezas. Há um quantum de patrimônio a partir do qual a fortuna não modifica mais a qualidade de vida da pessoa.
Há um limite de acumulação de capital e de concentração de renda, a partir do qual os riscos de ruptura civilizatória poderão colocar em xeque a segurança de todos. Esse limite já chegou e é preciso reconhecer isso.
A fome pode afastar os limites éticos e jurídicos de respeito aos princípios e regras da convivência humana, pautadas na racionalidade, trazendo uma violência reativa, que talvez possa se mostrar incontrolável diante dos abusos cometidos.
O desmonte radical do Estado de Bem-Estar Social, modelo arquitetado na sofisticada elaboração constitucional brasileira, baseado em princípios como o da solidariedade social, da igualdade e da universalidade de direitos como a saúde e a educação, poderá nos levar a uma situação de insustentável equilíbrio civilizatório.
A notícia de que Paulo Guedes e Roberto Campos possuem empresas offshore em paraíso fiscal, ao mesmo tempo em que comandam a política econômica do país e que agem em benefício próprio, patrocinando interesses privados e pessoais e arremessando no lixo, homens, mulheres e crianças, restos humanos, corpos esquálidos, sem dignidade e honra, é criminosa e deve ser objeto de punição exemplar.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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