No último dia 15 de outubro, comemoramos o Dia do Professor. Por um critério de justiça e de equidade de gênero, se considerarmos o número superior de mulheres na docência, especialmente no ensino fundamental e médio, talvez devêssemos alterar a terminologia para Dia das Professoras.
Longe do recebimento de flores, mimos e abraços , ainda comuns em nossos dias, a data foi comemorada a distância, com um sentimento de desalento, angústia e preocupação com o futuro, por grande parte dos educadores, sejam eles professores de escolas e universidades públicas, sejam de instituições particulares.
O certo é que o dia veio carregado de sentimentos contraditórios, com a reafirmação de muitos quanto às suas opções profissionais ou vocacionais, como entendem alguns, seja de suas da certeza de que escolheram a profissão que desejavam e que amam, hoje se apresenta com um misto de dúvidas, receios, inseguranças e impotência.
Uma análise da conjuntura, seja ela decorrente do cenário diretamente relacionado à pandemia, seja resultante da compreensão de seus possíveis desdobramentos, conduz à constatação de que nada mais será como antes para esses que foram, são e serão os profissionais mais relevantes para a construção de uma nação livre, democrática e ensejadora de orgulho e sentimentos de pertença a seus cidadãos.
Diante das lutas e desafios que tiveram que enfrentar, reinventando-se como docentes, e concebendo e arquitetando um modelo pedagógico que, certamente, não será estratégia temporária, para dar conta de um momento circunstancial e provisório mas que se constituirá no germe do novo paradigma que começa a se desenhar, os professores foram insultados moralmente pela figura mais importante no cenário institucional educacional brasileiro, qual seja o ministro da Educação Sr. Milton Ribeiro.
DECLARAÇÃO DO MINISTRO
A afirmativa de que “hoje, ser um professor é ter quase que uma declaração de que a pessoa não conseguiu fazer outra coisa” é, no mínimo, uma desfaçatez que diminuiu a figura imponente e respeitada no meio presbiteriano, do pastor Milton.
Aquele que deveria ser o grande defensor da classe, o estimulador das competências profissionais, o propositor das grandes ideias a serem desenvolvidas para alavancar o novo modelo educacional brasileiro, mostrou-se despreparado para o cargo e, de forma inábil, preconceituosa, irreflexiva, inadequada - a qual deve lhe ter custado horas de sono e de arrependimento - afirmou, sem evidências científicas a sustentar sua hipótese, que professores são aqueles que não obtiveram sucesso em outras profissões.
Pobre ministro que tem que se desculpar, ou não, e se arrepender, ou não, pela ofensa perpetrada contra mais de 2,5 milhões de profissionais que hoje compõem o quadro de professores da nação, sendo que, destes, cerca de 2,2 milhões no ensino fundamental e médio e cerca de 384 mil no ensino superior.
O pastor respeitado no presbiterianismo brasileiro, conhecido por sua integridade e ponderação discursiva, com formação adequada, expõe sua fragilidade ao se aproximar do poder.
O silêncio, tão valorizado na Bíblia, poderia tê-lo ajudado a preservar sua imagem. Some-se a isso, que a um ministro da Educação não é dada a escusa de desconhecer a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Apequenou-se o ministro e sua reputação.
"Pobre ministro que tem que se desculpar, ou não, e se arrepender, ou não, pela ofensa perpetrada contra mais de 2,5 milhões de profissionais que hoje compõem o quadro de professores da nação"
A deprimente afirmativa, que tão grande desconto causou a tantos, certamente foi pronunciada por descuido. Tivesse o ministro se atentado para o discurso que pronunciava e teria ele evitado sua manifestação. Não acredito, em sã consciência, que o pronunciamento tenha sido feito no sentido de ofender alguém.
O próprio ministro faz parte de uma outra categoria profissional que também é alvo de críticas dessa natureza. Pastores são acusados, muitas vezes, de terem seguido a “profissão” não por chamado divino ou vocação , mas por não terem “dado certo” em outro ofício ou atribuição, tendo por isso se tornado pastores. Outros são acusados, não raras vezes, injustamente, de que se tornaram pastores por interesses inconfessáveis, vinculados a projetos de poder ou econômicos.
Nos dois casos, professores e pastores, há injustiças quando generalizamos. Aliás, toda generalização, em tese, é reducionista, pobre como possibilidade de análise e injusta por enquadramento injustificado de pessoas comprometidas, verdadeiramente, com suas vocações e profissões.
Conheço pastores oportunistas e professores que não escolheram a profissão por desejo inicial de suas vidas, mas generalizar sobre isso, ainda mais quando feito por um dirigente máximo do órgão que comanda a política de Educação em nosso país, é lastimável. O conhecimento e a intimidade com a ciência precisa nos tornar prudentes da mesma forma que o exercício do pastoreio e dos cargos públicos, deve nos tornar sábios e contidos no uso da palavra.
FORTALECIMENTO NA CRISE
Os professores, no entanto, saíram engrandecidos da crise. Mostraram-se competentes, dedicados, criativos e corajosos. Resistiram a todas as condições adversas que se lhes estava imposta pela crise pandêmica e pela ruptura paradigmática que se lhe avizinhava.
Compreenderam que era hora de reinventar-se, de construir novos modelos pedagógicos, novas estratégias de ensino e que precisavam superar todas as suas limitações tecnológicas, emprestando suas casas, seus saberes e suas energias para vencer a crise e preservar o que era possível, conservando a dignidade da profissão e sobrevivendo ao caos que se encontrava instalado.
Com racionalidade, criatividade, dedicação arregaçaram as mangas e se dispuseram a construir o mundo novo que se descortinava no horizonte. Superaram seus medos, suas inseguranças, suas dores com o futuro sombrio e com a perda de pessoas amadas, para se dedicarem à recomposição do caos em que se viram mergulhados.
Entenderam a gravidade da situação e a dimensão da crise, se colocando à disposição da Nação para participar de seu processo de sobrevivência e de reconstrução.
São, juntamente com os profissionais da saúde, os grandes heróis dessa pandemia. Enobreceram sua profissão e demonstraram que podem, a despeito do sistema e das condições inóspitas, participar da construção de um futuro que se mostra todo a ser remodelado e não reproduzido.
Coragem, comprometimento, humildade, dedicação e criatividade são a marca de nossos professores. São eles a mola propulsora do futuro. Os arquitetos da nação. Os engenheiros do novo e arrojado modelo de formação de crianças, jovens e adultos que precisarão se preparar para enfrentar os desafios do pós-pandemia.
Instituições de ensino de vanguarda, capazes de sobreviver nos novos tempos que se apresentam, serão aquelas que perceberem, hoje, que a construção desse novo mundo exigirá educadores, não utilizados como mão de obra barata, força de trabalho a ser exaurida, mas educadores valorizados por seu saber, por sua dedicação, por sua inventividade, por sua capacidade de acolher a ignorância e convidar pessoas a saírem de seus lugares de acomodação no saber básico, operacional, de natureza meramente técnica, subserviente, servil aos interesses do capital, para um lugar de sensibilidade e de inspiração na conjugação dos princípios da liberdade, da autonomia, da justiça e da dignidade.
Educadores são mentes livres dos freios da ignorância, que compartilham seu saber, suas dúvidas e suas humanidades, em uma busca de refinamento intelectual, pelo viés da reflexão crítica sobre a existência e seus modelos de dominação.
Emancipar é da tipicidade do processo educativo. Instituições de ensino criativas, críticas e inovadoras serão aquelas que respeitarem seu maior capital, qual seja, as pessoas que nela atuam e que a ela se dedicam.
Educadores reinventarão o mundo que a nós se apresenta hoje como obscuro.
Iluminar também é da natureza da educação e do exercício da prática educativa.