O medo continua sendo a companhia mais constante das mulheres. A violência é uma realidade inquestionável e as estatísticas apontam um importante crescimento de todos os tipos de violência contra as mulheres, apesar do esforço concentrado no sentido de ampliar os canais de denúncia e os espaços de educação, esclarecimento e acolhimento em razão da vulnerabilidade em que se encontram, pelo simples fato de serem mulheres.
Em plena época de carnaval, considerada por muitos como a festa da alegria por excelência, somos impactados por resultados de pesquisa que confirmam algo que intuitivamente todos sabemos. As mulheres têm muito medo de sofrerem assédio sexual e, no carnaval, esse medo se intensifica.
Elas não conseguem ter paz em momento algum de suas vidas. Nem mesmo quando estão vivenciando uma data especial que se caracteriza pela diversão e pela alegria.
Pesquisa recente, realizada pelo Instituto Locomotiva e QuestionPro, aponta que 73% das mulheres entrevistadas relataram ter medo de sofrer assédio sexual durante o carnaval. Esses números são ainda maiores quando se analisa isoladamente o resultado com mulheres negras. É um número significativamente alto e que reflete o cotidiano das mulheres.
O medo que relatam não é algo infundado, sem sustentação na realidade, sem lastro no mundo da vida. Elas têm medo porque já sofreram assédio dessa natureza durante folias em anos anteriores. Cerca de 50% delas assim relataram. Além disso, certamente, elas viram suas amigas passarem por situações semelhantes e sabem que isso acontece com frequência, de forma naturalizada, como comportamento adotado pelos homens, em razão de uma cultura machista que os faz ver as mulheres como objetos para o seu prazer e domínio.
O medo é um reflexo das experiências de vida das mulheres que cotidianamente vivenciam situações de violência de todas as naturezas. São 3,81 feminicídios por dia no Brasil, fora as tentativas, o que representa uma das maiores taxas mundiais desse tipo de crime. Mulheres morrem todos os dias pelo simples fato de serem mulheres. O aumento de mortes de mulheres é da ordem de 31,46% em quase quatro décadas.
O carnaval só estava começando e enquanto esse artigo estava sendo escrito, denúncias de estupro no carnaval da Bahia, por exemplo, já pipocavam. Só no primeiro semestre de 2023 o Brasil registrou um aumento de quase 15% de estupros, sendo 34 mil nos primeiros seis meses do ano, com uma média de um caso a cada oito minutos.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) o resultado da pesquisa em 2023 apresentou o maior número da série que foi iniciada em 2019. Registre-se que estamos nos referindo aqui às estatísticas oficiais, isso sem considerar as subnotificações, já que parcela significativa dos estupros, por exemplo, não é objeto de denúncia, ficando ocultada no interior das casas, seja por medo, seja para “preservação do núcleo familiar”, em razão da dependência financeira ou da descredibilização das vítimas.
As justificativas do assédio sexual no carnaval são as mesmas utilizadas para o assédio que acontece todos os dias em diferentes situações do cotidiano. As mulheres saem do lugar de vítimas que são para o lugar de responsáveis pelo ocorrido.
São elas, no dizer deles, e de grande parte da sociedade, as provocadoras do assédio. Segundo a mesma pesquisa do Instituto Locomotiva e do QuestionPro, 32% dos brasileiros afirmam que as roupas que as mulheres vestem são reveladoras de uma autorização para que sejam beijadas.
Ou seja, ao utilizarem fantasias ou roupas que expõe parte do corpo, as mulheres estariam dando autorização para serem violadas. Interessante que o inverso não é verdadeiro. Homens podem transitar de sungas reduzidas sem que isso signifique qualquer tipo de autorização.
Tão grave quanto é a afirmativa de que não há problema algum em um homem roubar um beijo de uma mulher que esteja alcoolizada ou com pouca roupa.
O que assistimos no carnaval é, simplesmente, o reflexo de uma cultura baseada na ideia de que o homem é senhor dos desejos da mulher, tendo, sobre o corpo delas, pleno e absoluto domínio.
Outra questão importante a ser objeto de reflexão é a ideia de que os homens não podem ser provocados pois são incapazes de controlar seus desejos, e, nesse sentido, toda a responsabilidade pelas violações dos corpos femininos seria da própria mulher e não do homem.
Essa crença está enraizada no imaginário social. Pais, ainda hoje, orientam as filhas a evitarem roupas provocativas ao saírem de casa para não sofrerem violência sexual. Homens ciumentos exigem que suas namoradas ou esposas troquem as roupas que vestiram e que consideram provocadoras, por outras mais discretas.
Os manuais orientadores dos retiros de carnaval das igrejas evangélicas são unânimes em estabelecer regras de que as mulheres devem utilizar maiôs e não biquínis, durante os banhos de piscina, evitando assim provocações indevidas dos santos homens presentes.
Aos homens, nesses mesmos momentos, é possível transitar de shorts sem camisa, mostrando o corpo praticamente todo. É interessante que esse regramento é aceito sem qualquer contestação por parte dos fiéis, inclusive por parte daquelas mulheres que frequentam praias e piscina, com biquínis minúsculos, perto dos mesmos maridos que as acompanham nos retiros. É como se os “homens de Deus”, presentes no retiro, estivessem mais expostos aos desejos carnais do que quando frequentam esses locais durante o verão.
A crença na incapacidade do homem de controlar seus desejos diante de mulheres com parte do corpo exposta ou alcoolizadas é simplesmente desqualificadora deles.
Não é justo transferir para a mulher a responsabilidade por uma incapacidade do homem de controlar seus desejos. Uma incapacidade que, na realidade, não existe. Ela é autorizativa, justificadora de uma cultura validadora da supremacia do macho sobre a fêmea.
Homens são plenamente capazes de se autocontrolarem, do mesmo modo que as mulheres se autocontrolam. Justificar esse tipo de violações responsabilizando as mulheres é bestializar os homens em um processo cada vez mais potente de perda da natureza humana de que são constituídos, assim como as mulheres.
Independentemente de gostarmos ou não do carnaval e de como o vemos a partir de nossa religiosidade, o certo é que esse é um espaço como outro qualquer no qual mulheres devem ter o direito a definir como querem se divertir.
O medo não pode continuar a ser a companhia mais frequente das mulheres. É necessário romper com a cultura de que mulheres precisam de um homem ao lado para se sentirem protegidas.
Os homens precisam se conscientizar de que a validação de seus comportamentos violadores de mulheres lhes é completamente desfavorável. As justificativas utilizadas são apequenadoras de sua capacidade cognitiva e da condição racional inerente a sua humanidade. Animalizados pela cultura machista, perdem seu valor e sua grandeza como obra maior e mais nobre da criação.
Não é não em qualquer lugar ou situação.