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Brasil

Enquanto o Rock in Rio rolava, o Brasil ardia (e arde) em chamas

O fogo chega a Brasília e aos centros urbanos. Talvez agora comecemos a perceber que temos alguma coisa a ver com isso que nos parece, na maior parte das vezes, tão distante de nós

Públicado em 

24 set 2024 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

O Brasil está, literalmente, derretendo. Nossas reservas florestais estão sendo consumidas por um fogo incontrolável. Cerca de um milhão de hectares de nossas florestas primárias foram afetadas. Em torno de um milhão e quatrocentos mil hectares de pastagens. A terra está em chamas. O cerrado se transforma em uma terra sem vida, com a destruição de um bioma já fragilizado.
Segundo a ministra Marina Silva em entrevista à Globo News, há rios que já baixaram mais de dez metros de profundidade e outros que literalmente deixaram de existir. O desmatamento é, certamente, não a única, mas a maior e principal causa dos incêndios no Brasil.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), são mais 172.815 focos de incêndio em 2024. Críticas à atuação do governo federal nesse momento são inconsequentes e objetivam transferir responsabilidades que são de todos: governo federal, governos estaduais, governos municipais, gestores públicos e privados, sociedade em geral.
As consequências são trágicas, objetivas, diretas e graves, não apenas na perspectiva do futuro, mas para o aqui e agora. A saúde humana é afetada de modos diversos. Estamos inalando, mesmo sem perceber, gases tóxicos, redução de oxigênio no ar e inalação de partículas resultantes da combustão da vegetação.
Essas informações estão nos mais importantes manuais de pneumologia e os profissionais da área, especialmente, pneumologistas, clínicos e pediatras, sabem os desdobramentos desses ataques ao corpo humano.
A umidade do ar despencou a níveis insustentáveis do ponto de vista da saúde humana. A ministra Marina Silva nos alertou, em sua entrevista, que a unidade do ar em alguns lugares no Brasil ficou mais baixa do que a do deserto do Saara. Segundo a Organização Mundial de Saúde os níveis adequados de unidade do ar, aceitáveis e compatíveis com a vida, estão entre 50 e 60%. No entanto, em algumas cidades brasileiras, como Brasília, a umidade chegou a apenas 8% no dia 4 de setembro.
As unidades de saúde e pronto atendimentos começam a receber crianças e idosos afetados pela fumaça, pela fuligem e pela baixa umidade do ar. A situação, certamente, tende a piorar.
Por mais que o Estado faça, não há como controlar o fogo quando ele se alastra. Não há gente suficiente e não haverá, por mais que o governo contrate, compre equipamentos apropriados e intervenha de forma contundente propondo mudança de legislação, que o Judiciário se movimente como o fez por meio do ministro Flavio Dino, há uma parcela que é nossa, da sociedade e que não estamos fazendo.
Enquanto o fim se anuncia de forma trágica e deprimente e nos sentimos impotentes, a festa rola no Rock em Rio. Milhares de pessoas se divertem freneticamente, o que é salutar do ponto de vista da juventude e da alegria. O problema não é esse. A vida segue e não pode parar. O congresso está concentrado nas eleições municipais. Uma luta legitima por participação e democracia.
Mas, diante da gravidade da situação, diante do risco de comprometermos nosso futuro comum, não seria hora de um movimento orquestrado, suprapartidário, concentrado, mobilizador da nação, para enfrentarmos o risco de um fim que se anuncia trágico para todos?
Rock in Rio 2024 começa neste mês
Rock in Rio  Crédito: Folhapress
O fogo chega a Brasília e aos centros urbanos. Talvez agora comecemos a perceber que temos alguma coisa a ver com isso que nos parece, na maior parte das vezes, tão distante de nós.
Imaginemos os 700 mil jovens que pagaram 795 reais para assistir a um show no Rock em Rio envolvidos no combate aos incêndios em seus Estados. Uma brigada de estudantes, professores e população em geral, envolvidos todos, em uma mesma causa, ao mesmo tempo que o executivo, o legislativo, o judiciário e todos os aparelhos estatais estejam colocados a serviço desse mesmo projeto comum de sobrevivência.
Pode parecer utopia, mas é, talvez, o único caminho possível. Sentir o calor do fogo no próprio corpo e risco de ser por ele tragado para proteger nosso único planeta habitável.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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