Foram quatro anos apenas, mas repercutirão em nossa história por séculos. Os mais de 700 mil mortos pela Covid-19 são uma pequena parte dos horrores e das perdas que ainda sofreremos como resultado da escolha trágica, feita por cerca de 30% dos eleitores brasileiros que se deixaram capturar por um projeto de poder emoldurado pelo ódio e pelas mentiras ardilosamente arquitetadas, representado por uma figura dantesca de nome Bolsonaro.
O fogo que queima o Brasil de norte a sul traz as marcas e o DNA do encantamento pelo discurso absurdo e distópico emanado de um ser sem qualquer compromisso com a vida, com a saúde, com a verdade, com a coerência e com a dignidade.
Assistindo ao fogo queimar nossa tão festejada e invejada Amazônia, locus depositário de nossas esperanças de futuro, fiquei a me lembrar dos discursos debochados do ex-presidente: “Não adianta fazer videozinho mentiroso ‘tá pegando fogo na Amazônia, vai mudar o clima no mundo’, não funciona”; “nossa floresta é úmida, e não permite a propagação do fogo em seu interior”; “então essa história de que a Amazônia arde em fogo é uma mentira!”.
Não tenho raiva dos que votaram nele e que sustentaram de maneira ingênua e crédula seus 4 anos de desgoverno. Tenho, sim, profunda pena de tantos quantos contribuíram de forma pueril com os absurdos vociferados por um ignorante, usados estrategicamente pelos verdadeiros comandantes dos destinos da nação que se utilizaram de um bobo da corte colocado na presidência para cumprir a missão que lhe estava destinada, acreditando ter efetivamente o poder em suas mãos.
Quem não se lembra do sorriso cínico afirmando “Esse pessoal do meio ambiente, se um dia eu puder, eu confino-os na Amazônia, já que eles gostam tanto do meio ambiente”. Talvez, agora, fosse a hora de confinar na Amazônia em chamas, Bolsonaro, Ricardo Sales e todos os que acreditaram, e talvez ainda acreditem, contra todas as evidências, que em florestas úmidas o fogo não pega.
O desrespeito aos povos originários, os verdadeiros guardiões de nossas reservas florestais e de parcela importante de nossa biodiversidade; a afirmativa de que em seu governo não haveria um centímetro de reserva indígena; a culpabilização dos quilombolas, indígenas e das legislações de proteção ambiental e hipervalorização do agronegócio foram marcas fortes de um governo que produziu as condições para que hoje o fogo ardesse com tanta força destruindo a vida e a riqueza de nossa nação.
Em nenhum momento o ex-presidente fingiu ser aquilo que ele não era em relação à questão ambiental. Sempre afirmou seu absoluto desprezo por qualquer tipo de ação, instituições ou pessoas envolvidas com a questão ambiental. Sua aversão ao Ibama e ao ICMBIO levou-o a afirmar que não abriria concurso para esses órgãos pois “quanto menos dessa gente por aí, melhor para todo mundo”.
A falta de pudor de afirmativas como essa e a de Ricardo Sales, de que era hora de aproveitarem a distração coletiva com a Covid para “passarem a boiada”, não foram bravatas sem consequências. O próprio presidente afirmou, sem qualquer “melindre”, que seu governo havia reduzido em mais de 80% as multas no campo para aqueles que haviam infringido legislações ambientais.
Da mesma forma, vangloriou-se de haver produzido importantes reformas infralegais, quais sejam, revogações de mais de cinco mil normas regulamentadoras.
O que assistimos agora é só o começo das dores. Tempos ainda mais difíceis virão. Assim como sofreremos as consequências das doenças pós-Covid que estão se manifestando aos poucos, assistiremos ao resultado de quatro anos nos quais o país viveu o mais profundo desrespeito e desprezo por todas as formas de vida.
O atual governo tem a responsabilidade de fazer não apenas o seu dever de casa, mas recuperar a vida e a dignidade perdidas. Em nome da democracia e do amor à pátria precisamos todos rechaçar todas as formas midiáticas e irresponsáveis de políticos que se apresentam com discursos eivados de desinformação e de desrespeito à inteligência coletiva.