Enganam-se os que pensam que a democracia é uma conquista que uma vez alcançada está garantida para sempre. Pelo contrário, ela está em permanente estado de instabilidade, por mais que esteja, aparentemente, consolidada em uma nação. Não basta estar na Constituição para que um país possa ser considerado verdadeiramente democrático.
A democracia é um processo cotidiano de luta contra os anseios ditatoriais que permanecem vivos nos corações e nas mentes de muitos, especialmente daqueles que, tendo perdido privilégios dos quais se julgavam merecedores, desejam retornar ao status quo anterior.
Para além da estruturação normativa e institucional na qual ela esta sustentada, a democracia é um constructo, conjunto de representações, significados, interpretações e práticas que precisam ser alimentados no cotidiano, no chão da vida, nas salas de aula, no pátio das escolas, nas igrejas, nas casas, nos quarteis, nos sindicatos, nas fábricas, nos escritórios e em todo os lugares onde homens e mulheres se encontram e estabelecem relações.
A ditadura, oposto da democracia, se constrói a portas fechadas, nos porões, na falta de diálogo, na desigualdade, na exclusão, no fomento ao medo, no discurso belicoso, autoritário, no patriarcado violento, no proselitismo religioso e sectário que mais se sustenta no medo do inferno do que nas alegrias do céu.
A ditadura - fomentada nas negociatas no parlamento, nos orçamentos secretos, nas subvenções, na falta de punição para aqueles que no passado deveriam ter respondido pelos ataques à democracia, pela tortura, pelo desaparecimento de corpos, pela destruição da imagem e da dignidade de tantos, pela morte de milhares sem que fossem responsabilizados, pelo silêncio conivente e acomodado de tantos - floresce com força e vigor.
No apagamento da história, da cultura e da ciência, no desfazimento da educação libertadora, no investimento em corpos esfomeados e adoecidos, a ditadura prospera, progride e se ramifica. Conquista adeptos com baixa capacidade de compreensão e com pouca sensibilidade ética, moral e jurídica.
Mas na força do povo, soberano, crítico, corajoso, disposto a suportar as consequências da resistência, a democracia se impõe como único caminho possível à dignidade humana e à felicidade.
Em breve, talvez, a tenhamos de volta. Frágil, debilitada pelos sucessivos ataques, necessitada de cuidados e de cuidadores dispostos a investir suas melhores energias na construção de uma cultura de paz, dialógica em essência, solidária, inclusiva e eticamente comprometida com a vida de todos, enfim, uma democracia carregada de utopias, de novos projetos e de esperança no futuro.
Resistir enquanto é tempo. Alimentar-se de sonhos que possam ser transformados em realidade. Compreender que nem toda divergência deve necessariamente transformar-se em hostilidade que inviabilize o diálogo.
Encontrar os pontos de convergência com aqueles que têm a essência democrática em seu espírito e com eles construir pontes que nos permitam salvar o pouco que restou de nossa tão jovem democracia.