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Educação

Davi, de Michelangelo, e o ataque insano do puritanismo

Educadores de todo o mundo se perguntam acerca das consequências desastrosas da ampliação da falta de liberdade pedagógica, elemento constituinte do fundamentalismo religioso

Publicado em 04 de Abril de 2023 às 00:05

Públicado em 

04 abr 2023 às 00:05
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Estátua
Davi, de Michelangelo Crédito: Wikipedia
O movimento ultrarradical puritano que se alastra pelos EUA, com ramificações importantes também no Brasil, continua a fazer estragos por todos os lados. Na política, na educação, na cultura ou em qualquer outra área, chegamos a um estágio de risco iminente de retrocessos sem limites.
A demissão de Hope Carrasquilla, diretora de uma escola americana que “ousou” utilizar em uma aula de artes, sem autorização prévia dos pais, como instrumento pedagógico, a imagem da estátua de Davi, obra-prima do grande Michelangelo, um dos maiores e mais valiosos símbolos da escultura mundial , é demarcadora dos tempos e das estratégias do obscurantismo que ameaçam a inteligência e o futuro da humanidade.
O renascimento, um dos mais férteis e produtivos períodos da história humana, no qual grandes obras-primas da arquitetura e das artes foram concebidas em um ambiente que respirava literatura, filosofia, espírito de renovação e criação, com alta performance civilizatória e política, substrato adequado à estética, precisa, na opinião de parcela dos puritanos ultrarradicais americanos, ser apagada em favor da moral e dos bons costumes.
A imagem de Davi, uma das mais belas, singelas e ao mesmo tempo sofisticadas criações estéticas do primoroso artista,  é considerada por alguns pais, certamente contaminados pela ignorância, preconceito e obscurantismo, como pornográfica.
Ao exigirem a demissão da diretora da escola que se atreveu a expor a nudez humana, a jovens adolescentes pretensamente pudicos, inocentes e virtuosos, com seus 11 e 12 anos, esses pais, e também os membros do conselho pedagógico, deixaram evidenciar sua hipocrisia inculta e vergonhosamente utilitarista.
O mero suscitar da crítica à utilização da uma imagem de nudez associada a um tema da relevância do Renascimento demostra que a frágil condição humana desses pais e, em especial, dos educadores que aceitaram punir a professora por ensinar o seu mister com competência, coerência e sabedoria.
Expuseram, todos os envolvidos na vexatória decisão, sua própria nudez intelectual e cultural. A nudez de Davi, em uma bela escultura em mármore branco, se apresenta carregada de pureza e da condição simples, casta e virginal do jovem Davi ao lutar com Golias.
Davi, o representante de Deus, despido das estratégias de guerra e do mal, captada com maestria e sensibilidade, talvez espiritual, pelo artista, é agora transformada em depravada e corrompida, tal qual a mente pervertida e suja dos acusadores da professora, essa sim, culta e comprometida com a verdade e com a história.
A justiça americana que, certamente, determinará o retorno da diretora à sua função, jamais será capaz de recompor o que foi quebrado na história dessa escola e de seu corpo pedagógico.
A vergonha da ignorância exposta ao mundo, da sujidade moral de mentes pervertidas por um puritanismo radical e inculto, pobre de sabedoria, de grandeza e de espiritualidade, jamais serão recompostos.
Em Florença, onde a escultura de Davi é exposta com orgulho e se impõe a todos os visitantes, ávidos de cultura e história, a preocupação reside na pobreza cultural que ainda permanece em tantos lugares do mundo. Não é a riqueza, por si só, que afasta a ignorância.
Educadores de todo o mundo se perguntam acerca das consequências desastrosas da ampliação da falta de liberdade pedagógica, elemento constituinte do fundamentalismo religioso, puritano, atrasado, obscurantista e antidemocrático.
Há pureza na nudez de Davi. Há pornografia na mente depravada de pais e educadores que, porventura, vivam sob as correntes sufocantes e destruidores do falso moralismo religioso ou ideológico.

Elda Bussinguer

Pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitária

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